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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Navios, barcos e barquinhos na ... minha vida!


Um navio, é como um filho de ... muitos pais!
Pais que o concebem, pais que o constroem e pais que o amparam durante a sua vida. Pena é que alguns maus pais, ou padrastos, lhes encurtem a vida, propondo-lhes, qual “eutanásia”, a morte prematura.

Nunca tive nenhum interesse especial pelo mar ou, em particular, por navios. A minha curiosidade, quando levado a passear, pelo meu irmão, limitava-se a olhar os navios e ler os seus nomes e aí sim, eu era curioso. Achava imensa graça ao “Sete Cidades” e ao “Sofala”. O primeiro porque pensava que era enorme, a avaliar pelo nome e o segundo porque bastava acentuar o “ó”!
Quis o acaso que aos 14 anos eu fosse trabalhar para o Argibay e, curioso, conhecer toda a frota dos Carregadores Açoreanos e não só contactar com o “Sete Cidades”, mas já era outro mais recente, como também com o “Pêro de Alenquer”, navio ainda a carvão, o “Lagoa”, o “Monte Brasil”, o “Horta”, o “Ribeira Grande” e o “San Miguel”. Fiquei também a conhecer o navio dos pilotos, o “Pedro Rodrigues”.

Menos de um ano depois, ingressei na AGPL e tive ocasião de conhecer toda a sua vasta frota, de lanchas, rebocadores, cábreas e dragas. O convés da cábrea “António Augusto de Aguiar”, a borda falsa do “Cabo Espichel” e o pontão de embarque da Trafaria, têm a marca da minha picadeira, tal como os tanques e porões da draga “Guadiana”, também não me desconhecerão.

Isto serve para dizer que, excluindo a fase de concepção e a de “morte assistida”, em todas as outras eu me vi envolvido.
À fase de construção, bem cedo, ainda miúdo, eu fui assistindo. Sem particular interesse, como já referi. Apenas se dava o caso de eu passar, frequentemente, na avenida 24 de Julho, defronte das carreiras de construção do estaleiro naval da CUF e, aí, fui assistindo ao “nascimento”, com grande "alarido" da cravação, do “Conceição Maria”, do “António Carlos”, do “Alfredo da Silva”, do “Ana Mafalda”, do “Rita Maria”, do “Manuel Alfredo”, dos pesqueiros “Praia de Algés” e “Praia de Cascais”, dos draga minas “S. Roque”, “Lagoa”, “Ribeira Grande” e “Rosário”. Durante a construção destes últimos já eu trabalhava bem próximo, mesmo ali ao lado, na AGPL. Navios com o casco em alumínio, uma novidade, não havia operário que não se aproveitasse dum bocadinho de chapa de alumínio, para aí com 10 ou 12 mm de espessura. Ainda vi o “Maria Christina”, o “Mira Terra”, o “Silva Gouveia” e o “Santo Antão”. E, foi quando já trabalhava no estaleiro que assisti ao bota fora do “Chinde” e do “Angoche” e das barcaças para a Guiné, “Cacheu” e “Bolama”, que utilizavam um meio de propulsão, algo parecido com o “Voight Schneider”, de acordo com as águas onde iam operar. A partir daqui, já na Sala de Desenho, foram duas lanchas para a Guarda Fiscal e uma para a Polícia Marítima, esta em casco de fibra de vidro, da “Vickers”, mais outra inovação! E, só depois disto, comecei a “mexer”, apenas um pouco, na concepção do arrastão “Magnus Heinason”, para as Ilhas Faroe. Era a construção nº 189, foi lançado à água em 3 de Novembro de 1960 e entregue em 1961. Na sequência de outros que o antecederam, com o mesmo nome, a este coube-lhe ser desmantelado em 1974, para dar lugar a um “Magnus Heinason” mais novo e mais moderno!
O arrastão "Magnus Heinason"
(retirado de www.trawlerphotos.co.uk)
O "Magnus Heinason" em sêlo das Ilhas Faroe
(retirado de www.shipstamps.co.uk)














Seguiu-se o  “Sacor, navio petroleiro para a Sacor Marítima. Construção nº 188 (ou seria a nº190), lançado à água em 11 de Julho de 1960 e entregue em 1961.
Comprimento total de 76,50m

O navio-tanque "Sacor"
(retirado de www.naviosenavegadores.blogspot.pt)


Chegou, então, a vez do “Ponta Delgada”, navio misto, de carga e passageiros, para a Companhia Insulana de Navegação. Construção nº 191 (*), foi lançado à água e entregue em 1961.
Tinha um comprimento total de 67,17m e destinava-se a fazer a ligação entre ilhas, nos Açores.
Em 1988, em Lisboa, ficou imobilizado e o abandono foi tal que passados 13 anos, em 2001, vítima desse abandono e vandalização, sofreu um alagamento e afundou, no cais do Poço do Bispo. Como se isso não bastasse, só em Dezembro de 2007, qual “levantamento de ossadas”, foi desmantelado, ali mesmo!
Triste fim para um navio que eu, pessoalmente, não achava muito esbelto mas, os feios também têm direito à vida!

O "Ponta Delgada". Entrada na doca da Horta, ilha do Faial.
(Foto da autoria de Maria Teresa, retirada de www.casadotriangulo.com)
(*) Não sei porque “carga de água”, já algures eu afirmei que este navio era a construção nº269! Deve ser o meu “disco rígido” a falhar, digo eu! Aqui ficam, a correcção e as minhas desculpas.)


E coube ao “Rita Maria”, que tinha sido “acrescentado” em 1959, sofrer, em 1961, uma remodelação total do aparelho propulsor e do equipamento da Casa das Máquinas e redes de fluídos, como já em “post” anterior eu referi.
O "Rita Maria"
(retirado de www.restosdecoleccao.blogspot.pt)


Após este trabalho, seguiu-se um salto qualitativo, como agora se diz. Foi o caso do grande avanço tecnológico que se verificou com a construção das fragatas, tipo “Dealey”, para a Marinha de Guerra e que ficaram conhecidas como da classe “Almirante Pereira da Silva”. Com muita pena minha, depois de ter esmiuçado tudo quanto era desenho e especificação, a prestação do serviço militar na marinha mercante não me permitiu acompanhar a construção destas unidades. Porém, as especificações MIL-F-1183 e MIL-D-20236, nunca me sairão da cabeça tal como os desenhos BuSHIPS, tal foi o envolvimento durante mais de 1 ano.
A fragata  NRP  F472"Almirante Pereira da Silva", Tejo fora, rumo ao mar

No período de cumprimento do serviço militar, a partir de fins de 1963 e durante quase 3 anos, coube-me, também como já aqui relatei, fazer a condução das máquinas do navio “Angola”, paquete da CNN. Após este período, seguiram-se 6 meses na Marinha de Guerra, durante os quais fiz uma breve passagem pelo draga minas M407 “Angra do Heroísmo” e pelo patrulha P591 “Fogo”.
O draga-minas, NRP M407 "Angra do Heroísmo"
(retirado de www.velhosnavios.blogspot.com)

O patrulha NRP P591 "Fogo", no Tejo, defronte de Belém.
(retirado de www.velhosnavios.blogspot.com)


 Regressei à vida civil e ao estaleiro da Lisnave onde, em 1968, o “Santa Mafalda”, navio de pesca de arrasto pela popa, para a EPA, Empresa de Pesca de Aveiro, esperava pelos meus “doutos” conhecimentos para lhe fazer a implantação da Casa das Máquinas e entre outros afazeres, lá tive de inventar uma mesa de comandos, amovível, montada numa porta, tal a exiguidade do espaço disponível.
O arrastão "Santa Mafalda, em Lisboa, rumo ao mar!
(retirado de www.prof.2000.pt)

  
Por último, tive alguma intervenção na instalação e teste dos equipamentos do navio tanque “Larouco”, petroleiro de 81.170 ton, casco construído na Alemanha, segundo os planos do navio alemão “St. Michael”, para a Soponata (Sociedade Portuguesa de Navios Tanques), lançado à água em 1968 e entregue em 1969.
Até 1973, foi o maior navio da frota portuguesa. Em 1981 foi vendido a uma companhia grega.
Navio tanque "Larouco", fundeado.
 Pronto para começar a  navegar!

E aqui terminou a minha fase de envolvimento na “formação” de navios. Agora havia que os tratar, reparando-os quer interior, quer exteriormente.

Foi por isso que, sabedor de que o navio, como qualquer pessoa, necessita de tratamentos mas também de instalações onde se possam fazer essas intervenções, estive envolvido no projecto e implantação dessas “unidades de cuidados de saúde”, os estaleiros navais. Nestes eu posso enumerar, os estaleiros de Jeddah, na Arábia Saudita, São Vicente, em Cabo Verde, Bissau, na Guiné, Lobito, em Angola e Mormugão, na Índia.

Muitos outros navios foram passando por mim. E eu, por eles! Porém, os aqui referidos, foram os principais!  

Para quem nunca sonhou com “barquinhos” e parecia estar-lhe reservado um futuro como "manga de alpaca", convenhamos que não foi pouco!


(Nota, pós colocação deste "post"
Foi-me dado a saber que a foto do "Larouco", no "post" inicial, seria uma foto "pirateada" e assumida por outrém que não o verdadeiro autor. Perante tal facto, recorri ao meu acervo (Lisnave) e corrigi a situação, aproveitando para fazer o mesmo em relação à foto da fragata "Almirante Pereira da Silva". Creio, assim, ter resolvido o problema!)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Vamos ... "esticar" navios !


Na verdura dos meus 16 anos, trabalhava eu nas oficinas da AGPL (Administração Geral do Porto de Lisboa) quando um colega de oficina (o Tomé, jogador de futebol no Atlético) me levou a ver, ali ao lado, na doca nº 3 do Estaleiro Naval da CUF, aquilo que seria uma novidade. Um barco de pesca, o “Pargo”, estava a ser acrescentado, segundo um projecto do Eng. Rocheta. Não fazia eu a menor ideia de que, mais tarde, agora já trabalhando no Estaleiro, eu mesmo estaria envolvido em operações semelhantes e sucessivas.

O "Rita Maria" ... antes de !
(retirado de lmcshipsandthesea.blogspot.com) 


Assim, em 1959, assisti ao alongamento do navio “Rita Maria”, da Sociedade Geral. Esse alongamento, penso que de cerca de 8 metros, fez-se para vante do casario, diria mais propriamente entre o casario e o mastro de vante. E, começou por não correr lá muito bem! 


O "Rita Maria", julgo que ... depois de!
Com as cores da SG, como eu gostava de o ver!
(retirado de restosdecoleccao.blogspot.com)




As formas da quilha da proa do navio não permitiam uma grande área de assentamento nos picadeiros, razão pela qual era necessário lastrar e equilibrar muito bem a parte da proa quando ela fosse separada do resto do navio. Trabalho difícil mas, não impossível! Tudo preparado, na doca nº 1, comunicação social, televisão (que já havia) à porta do estaleiro, para constatarem mais um feito da engenharia naval. Porém, quis o destino que, à medida que a doca foi esgotando, a água foi descendo, a proa foi perdendo estabilidade e começou a adornar. Pára tudo e foi um corre corre para que a situação não se tornasse ainda mais crítica. Mandou-se embora a comunicação social, que nem sequer tinha entrado, e tratou-se de resolver a difícil situação. Como era difícil, mas não impossível, com redobrado esforço retomou-se o trabalho e daí a uns dias o “Rita Maria” já estava um bocadinho mais comprido!
Mas as atribulações deste navio não acabaram aqui. Lá crescido estava ele mas, agora, não tinha “força” para o corpo que tinha!
Em 1961, então, entendeu-se acabar o trabalho que se tinha começado em 1959. Pode dizer-se que, levou um “coração” novo mas, todos os seus “orgãos” foram substituídos, incluindo “veias” e “artérias” (as tubagens).
A máquina principal, 2 motores “Atlas Polar Diesel”, foram substituídos por um único motor, “Sulzer”, com uma dimensão tal que quase não cabia na Casa da Máquina. O espaço da Casa da Máquina ficou apinhado de equipamento. Não havendo espaço para lançar uma escada normal, do piso da Caldeirinha para o da Casa da Máquina, teve que se instalar uma escada de caracol (!). O rufo sofria dos mesmos apertos!
E, depois de todas estas atribulações, ficou a andar como previsto, foi transporte de tropas para a Guiné e foi com um aperto no coração que o vi e nem quase reconheci, esventrado e transformado em batelão de transporte de areias do Tejo. Triste fim o dum navio que eu, ainda miúdo, vi nascer, assim como aos seus imãos, “Alfredo da Silva”, “Ana Mafalda” e o mais novo, “Manuel Alfredo”, nas carreiras do  estaleiro Naval da CUF.


O "Hadar" na doca nº1.
Com água na doca, o bloco central ainda flutua e vai-se posicionando.
Passaram 10 anos e eis-me, então, a assistir ao alongamento do navio “Yafo”, o 4º e último da série de navios da ZIM Israel Navigation Co. Os outros foram o “Hadar”, o “Etrog” e o “Eshkol”.

Esta fase de navios israelitas, começada em fins doa anos 60, princípios de 70, destinava-se a aumentar o comprimento dos navios, de 135 para 159 metros, por meio da inclusão de um bloco com 24 metros de comprimento. Esta “onda” de alongamento de navios, veio na sequência do “jumboizing” do “Melusine”, navio mineraleiro francês da UIM (Union Industrielle et Maritime), em Abril de 1969, encomenda que a Lisnave tinha conseguido apesar de ser posta em concurso com 50 outros estaleiros, espalhados pelo Mundo. 

O "Melusine"
Flutuando, a proa e o bloco entram na doca
 .
(retirado de uim.marinefree.fr) 
O "Melusine", já ...  mais crescido!
(retirado de uim.marinefree.fr) 













O “Melusine”, tinha sido construído em 1961, com o comprimento de 141,300m e pretendia-se aumentá-lo para 150,130m. Em 1978, seria vendido e mudaria de nome e em 1982 seria desmantelado, em Ferrol, Espanha!




Plano dum dos cargueiros franceses da "Messageries Maritimes"
A "cirurgia", será efectuada na zona assinalada com um círculo
Seguiu-se uma série, de cinco navios franceses da companhia de navegação “Messageries Maritimes”, cargueiros de longo curso, destinados à linha Europa-Japão.
Estes navios seriam aumentados com um novo porão, com 18,40 m de comprimento.
Os 5 navios eram, a saber, o “Vaucluse”, o “Var”, o “Vienne”, o “Velay” e o “Vanoise”.

O "Vaucluse"
Em plena operação de entrada e posicionamento do novo bloco.

Ao fundo, à esquerda, o "Infante D. Henrique" e, à direita, logo a ré do "Vaucluse", o "Funchal"

O "Vaucluse", ainda em doca, mas já quase prontinho.
Podem ver-se, o "Santa Maria" e, ao longe, 
à esquerda o "Angra do Heroísmo" e, à direita, o "Funchal" 
A toda a operação (porque duma verdadeira operação cirúrgica se tratava) do primeiro destes navios, eu assisti. Aplicou-se nesta série um novo método no processo de ligação do novo bloco. Anteriormente o processo de ligação fazia-se por meio de um sistema de “macho-fêmea”, enquanto a doca ia sendo esgotada. Assim tinhamos uniões, de “facto” e perfeitas uniões. Nestas coisas ainda não estavam, nem estão, autorizadas as “uniões” “macho-macho” ou “fêmea-fêmea”. Nuncam dão resultado! Como eu dizia, o novo processo consistia, sumariamente e não me perdendo em pormenores em, após a lastragem e o conveniente assentamento, fazer a ligação utilizando o deslizamento em cima de duas chapas, entre as quais havia massa consistente previamente espalhada, tornando mais fáceis, a união e o alinhamento pretendidos.

Depois, a soldadura eléctrica, era “derreter” eléctrodos ao longo de toda a união das chapas, do novo bloco, às secções de vante e de ré anteriormente separadas.

E o navio só saía da “mesa” de operações (a doca) depois de, o alinhamento óptico e as radiografias da soldadura revelarem que estava de boa saúde.
No fundo, cirurgia pura!!!