quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

As Janeiras

Não sou especialmente versado no tema das Janeiras. Sei que serão cantadas, principalmente nas Beiras e norte do país, do Natal até ao dia de Reis. Grupos de amigos, folgazões, vão de porta em porta tocando e cantando versos cujo maior interesse é o de obter das pessoa a quem os dedicam a benesse de algo para comer ou beber. Os versos serão de agradecimento e louvor a quem abrir os "cordões à bolsa" e de zombaria a quem for "unhas de fome". Nada de novo, pois sempre foi e há-de ser assim!

Como meu contributo, aqui deixo uns versos retirados do livro, de Viale Moutinho, "Coisas do Arco da Velha":

Estas casas são mui altas,
forradinhas d'alegria,
viva lá quem nelas passeia
qu'é a senhora Maria!

Viva lá, senhor António,
onde põe o seu chapéu,
no meio da sua sala
parece um anjo do céu!

Viva lá, sor'Mariquinhas,
raminho de salsa pura,
debaixo da sua cama,
põe-se o Sol e nasce a Lua.

Viva lá o senhor Miguel,
fita preta em seu capote,
quando sai para a igreja,
parece a estrela do Norte.

As esmolas que nos deis
não penseis que as comemos;
elas são pra dizer missas
pelas almas que nós lá temos.

Levante-se daí senhora
do seu banquinho de prata,
venha-nos dar a janeira
que está um frio que mata.

A senhora que se demora,
alguma coisa nos quer dar:
ou o chouriço é grosso
ou a faca não quer cortar.

Faça-lhe gerrum-fum-fum
nas beiças do alguidar.

Mas, se os da casa não dão:

Serrão! serrão!
As casas lhe caiam ao chão!

Esta casa cheira a unto,
aqui mora algum defunto!

Esta casa cheira a breu,
aqui mora algum judeu!

Estes Reis aqui cantamos,
tornamo-los a descantar,
estes barbas de farelo
não têm nada pra nos dar.

Só têm uma arquinha velha
onde o gato vai mijar!


E, assim, se vai cumprindo uma tradição! Que seja por muitos anos!


Entretanto aproveito para informar, conforme indicado na barra lateral, que o blogue "Aldeia da minha vida", promove este mês uma Blogagem Colectiva sobre o tema das Janeiras.
Aos interessados, é só dirigirem-se a aldeiadaminhavida.blogspot.com, bastando clicar no selo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

FELIZ ANO NOVO DE 2010!!!!!!!

Para todos quantos por aqui passarem, o meu Bem-haja e votos de FELIZ ANO NOVO!

(Problemas técnicos impedem-me, neste momento, de incluir alguma imagem alusiva ao evento. Pelo facto, as minhas desculpas!)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

E o Pai Natal, será que existe?...


Nunca cheguei a ter contacto com o Pai Natal! Foi-me dado a conhecer o Menino Jesus! Até aqui, tudo bem. Só que quiseram vender-me a história das prendas dadas por ele e aí é que o caso se complicou. Eu tinha 4 anos, nunca tinha ouvido falar em tal coisa. Tinham-me levado a ver as barracas no largo do Camões, junto á estátua do dito e, ali, pude regalar os olhos com brinquedos (uma miséria nos dias de hoje) que me fizeram sonhar. Ai, aqueles cavalinhos de cartão (tudo material ecológico) com um estrado e 4 rodinhas, que maravilha! Aquilo é que seria cavalgar, em toda a sela ou mesmo sem sela! No fim desta incursão ao mundo do Natal, lá veio a pergunta: - "O que é que tu queres que o Menino Jesus te dê?". Os meus olhos ainda se arregalaram mais. Então, era só pedir? Ele é isso? Ora, venha de lá um cavalinho!, disse eu. Pois que sim, que talvez, se calhar, foi a resposta. Mas, a mim, ninguém me levava assim dessa maneira. Chegada a noite de Natal, fui deitar-me, fiz-me dormido e pus o meu serviço de escutas (ilegais, pois então) a funcionar. E o que é que eu consegui escutar? Ora, o "Menino Jesus" (o meu tio) a dizer à minha avó que o cavalinho (devia ser lusitano) era muito caro e tal e coisa e mais alguma conversa que por ser confidencial e não interessar para nada, resolvi destruir. Deitei-me, agora a sério, e dormi descansado, embora pensando em como é que o "Menino Jesus" se ia desenvencilhar daquela. Era só esperar até amanhecer.
Uma vez acordado, lá me levantei. E que vejo eu no meu sapatinho? Um pequeno e frágil martelinho! Talvez pensasse que eu ia ser carpinteiro, sei lá!
Ao ser indagado se tinha gostado da prenda, é que foi o bom e o bonito. Envergonhei-os a todos. Apresentei o meu relatório de escutas, em cima da mesa e de nada valeu dizerem que elas não eram válidas. Menino Jesus, sim! A dar prendas, nunca! E foi logo aí que, para mim, o Pai Natal, que ainda não tinha nascido, morreu!

Hoje, dou comigo a pensar se não teria sido melhor eu continuar a acreditar no Pai Natal. É que nos dias de hoje, quando ouço os discursos do nosso "inginheiro", faziam-me um jeitão. E não custa nada acreditar, pois não?

" O Milagre do Presépio" ou, outra história de Natal...


Sabido que, desde tenra idade, não era crente no Pai Natal, nem sequer nas prendas do Menino Jesus, sempre tive uma especial atracção pelo Presépio.
Nos meus 10 anos, resolvi que havia de fazer um presépio, nem que fosse daqueles de cartolina, porque os outros, com figurinhas de barro ou de chumbo, já ficavam muito caros e mereciam um outro enquadramento. Era só recortar as figuras, fazer uma pequena dobra e colá-las numa base,também em cartolina e onde se encontrava, devidamente marcado, o local que cada figura devia ocupar. Ora, assim aconteceu! Fiz o "choradinho" à minha mãe e lá consegui o dinheiro para comprar a folha de cartolina, com as figuras coloridas e muito bem marcadas. Era só recortar (com jeitinho, não fosse alguma figura ficar mutilada), dobrar e já estava. Pois, mas isso levava tempo e quando acabei de recortar já era noite. Habituado a deitar-me cedo, por força do frio que ia fazendo e porque, naqueles tempos, não havia televisão, ansioso, deixei o resto do trabalho para o dia seguinte. Ia mesmo ficar bonito o meu presépio!
Estava escrito que a noite, e ainda não era a de Natal, ia ser mágica!
Na manhã seguinte, mal acordei, vou direito à estante rudimentar que o meu pai tinha em tempos construído, prego aqui, prego acolá e que vejo eu! O Presépio, todo montadinho, cabana metida dentro duma caixa ( 20x13 cm ) que parecia ter sido feita mesmo para o acolher. Fiquei meio aparvalhado (a outra metade, que é o que me dá alguma aparência de credibilidade, manteve-se lúcida)! Como teria sido aquilo? Eu já tinha 10 anos e já não acreditava no Menino Jesus. Naquele momento já começava a duvidar das minhas certezas.
Mas, como aquilo não podia ficar assim, comecei a investigar e, ao fim dalgum tempo e muita perseverança, lá consegui descobrir o segredo.
Os artífices do "milagre" tinham sido o meu irmão, que estudava à noite e que ao chegar a casa, juntamente com o meu padrinho, resolveu terminar a construção por mim iniciada.
Apanharam-me a dormir e vai disto! Também só assim, às claras ninguém me levava!
Claro que, esse Presépio, ainda hoje o tenho, tem sido preservado e está bem à vista durante todo o ano e não só no Natal!!!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

E hoje, dia 24 de Novembro, faz anos que o "Angola" bateu no fundo... (conclusão)

Hoje,que é dia 9 de Dezembro, volto à narrativa, para a sua conclusão!
Chegados a Durban fomos atracar no cais, “Nr. 2 Maydon Wharf”, junto à entrada da doca seca e aí estivemos a aguardar a entrada em doca o que só aconteceu no dia 9 de Dezembro.
Mas, estava escrito que a viagem ia continuar a ser atribulada e assim, logo que começámos a manobrar, eu estava de quarto, o rebocador, que estava a Ré, certamente deixou-se ir muito para baixo do navio, levou com uma pá do hélice quando arrancámos com a máquina de Bombordo e “navio ao fundo”. Levou um golpe mesmo a meio.

O rebocador afundado


Conclusão, 2 ou 3 pretos mortos! Um preto que, com a pancada, foi lançado à água foi salvo, posto em terra e depois mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Safa! Outro apareceu no dia seguinte, a boiar, junto à doca. Também não se notou grande consternação da parte das autoridades. Para eles o pessoal de cor pouco contava, ou nada. Houve até uma bóia que foi lançada por um dos nossos marinheiros.
Fomos assunto de jornal e de visitas à doca e tudo. Pois bem, uma vez em doca seca, pudemos ver os estragos e dar graças a Deus por não ter sido pior.

O estado em que ficou o hélice de BB

O fundo, na zona de Ré, estava todo metido dentro e o robalete estava dobrado de Ré para Vante até meio navio. Houve que verificar todos os rebites e aplicar os tais reforços longitudinais. A empresa à qual se adjudicou o trabalho, James Brown & Hamer, concluiu a reparação no dia 17/12. No dia seguinte saímos da doca e rumámos a Lourenço Marques para que pudéssemos então iniciar a viagem de regresso, o que aconteceu no dia 21/12. Fizemos escala em Cape Town e passámos o Natal a navegar rumo ao Lobito. Já não fizemos escala em Moçamedes. A passagem do ano foi feita entre Luanda e S. Tomé, onde também não fizemos escala. Aliás, a viagem foi directa de Luanda a Lisboa onde chegámos, finalmente, no dia 9 de Janeiro. Era um domingo e estava escrito que a minha desdita não tinha acabado. Fiquei de serviço ao navio e só no dia seguinte fui para casa. Para quem pensava passar Natal e Ano Novo em casa, não estava nada mal!

Ficámos então em Lisboa para a reparação do navio, o que aconteceu no Estaleiro da Rocha, bem meu conhecido. Conhecia grande parte do pessoal. Estava em casa. Trabalhava 24 horas e descansava 48. Foram 2 meses de interregno na rotina das viagens e permitiu que passasse, em casa, os anos da minha avó Leonor, do meu pai e os meus. Nem tudo foram desgraças! Em princípios de Março lá começámos a preparar o navio para retomar a vida normal, o que também era conveniente, caso contrário eu não faria o tempo de navegação (derrotas) necessário, a que era obrigado por lei, dentro do tempo previsto. Além disso eu queria despachar-me quanto mais depressa melhor. Já haviam quase 2 anos que eu não tinha férias e o 3º quarto, que eu vinha fazendo já há algumas viagens, dava cabo de mim. Era um quarto que me punha de rastos quando chegava ao fim de cada viagem. Nunca me habituei a ele! Apesar de tudo, o 2º quarto era o melhor. Dava para tudo, conforme se quisesse, para descansar ou para passear. O que era necessário era programar o tempo disponível. O 1º quarto era muito normal mas não me agradava sobremaneira. Também é bom dizer que ele não estava muito ao meu alcance, como 3º maquinista, uma vez que era destinado ao 1º maquinista e ao 3º maquinista mais antigo. Assim, lá ia eu cumprir a minha sina, mais uma vez no 3º quarto. A vida continuava!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

APESAR DE TUDO, AINDA HÁ NATAL!!!



Não tenho uma especial apetência pela comemoração do Natal tal qual ele hoje é entendido. Todos falam de solidariedade, de bondade, amizade e outras palavras sonantes terminadas em ade, ou não. Mas, parece-me, a verdade é que falta vontade, nesta sociedade, em ver a realidade com honestidade e praticar a caridade, não a caridadezinha!
Na idade de todos os sonhos, o meu Natal era a época em que nos reuníamos, em Lisboa, a minha avó materna, os meus tios, o meu irmão e os meus pais. Havia Menino Jesus, a missa do Galo e não faltavam as filhós. Digo em Lisboa porque da minha terra, donde saí com pouco mais de 3 anos, nada recordo. Tudo aquilo que sei é de ouvir contar.
As filhós eram o motivo de toda a azáfama. Da minha mãe e da minha avó, claro! Nós, só as comíamos. Era vê-las, à noite (não havia tempo durante o dia) a amassar, a pôr a fintar e depois a tender, não sem que lhe tivessem adicionado o azeite q.b. e um calicezinho de aguardente. Espero que estes passos estejam correctos, pelo que deixo o favor da correcção aos entendidos, antecipando as minhas desculpas.
O próximo passo era estender a massa sobre a mesa (suponho que uma tábua, devidamente untada), passavam-lhe o rolo de madeira e depois de bem fininha, com a recartilha, cortavam pedaços rectangulares, nos quais davam ainda dois pequenos cortes no sentido longitudinal. A sertã, com o azeite, estava ao lume e começava a fritura. Era ver, então, aqueles rectângulos de massa a inchar e a ficarem como que umas almofadinhas. Depois de fritas e retiradas eram colocadas numa travessa e, por cima, deitava-se-lhes açúcar. Isso, eu já ajudava, esfarelando o açúcar entre os dedos.
Tudo pronto, colocavam-se as filhós dentro dum alguidar e tapavam-se com um pano, deixando-as arrefecer até ao dia seguinte.
Este trabalho entrava pela noite dentro mas, no dia seguinte, a Consoada estaria completa e as filhós, finas e estaladiças (como eu gosto), faziam as honras da mesa.
Havia também o hábito de ofertar, com elas, vizinhos e familiares, principalmente os que estivessem de luto, porque decerto não as fariam, e assim não se privassem delas em época de FRATERNIDADE.

Este é o texto com que participo na blogagem colectiva do mês de Dezembro, "O Natal na Minha Terra", do blogue "Aldeia da minha vida".

A blogagem deste mês tem um fim humanitário. Ser solidário! Trata-se de ajudar alguém, a Isabela, a vencer um obstáculo que a Vida lhe colocou. Se todos ajudarmos ela agradece e nós ficaremos mais ricos. Por isso, se quiser ajudar, não "dói" nada, basta comentar, a partir do próximo dia 10, este e os outros textos em www.aldeiadaminhavida.blogspot.com. Como pode ver, é fácil, fácil, fácil! E não custa nada!

Bem haja!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

E, hoje, dia 24 de Novembro, faz anos que o "Angola" bateu no fundo... (parte I)


O "Angola" encalhado, defronte da Ilha de Moçambique


Depois de ter saído de Lisboa, no dia 27 de Outubro, o “Angola” era o único navio de passageiros, da Marinha Mercante nacional, que passaria a quadra do Natal em Lisboa.
Era e não foi! Era sorte a mais!
Porque, no dia 24 de Novembro, quando o navio se preparava para fundear defronte da Ilha de Moçambique, aconteceu aquilo que ninguém esperava. Encalhou!
A viagem começou, e nada fazia prever que não decorresse normalmente. Pois bem, logo no início se apossou do pessoal uma ansiedade que só visto. Toda a gente queria saber a que velocidade íamos e se estávamos a ganhar tempo ou não. Ainda não tínhamos chegado a Luanda e já levávamos algum avanço. Era uma obsessão diária! Já fazia nervos e eu e alguns outros íamos dizendo para não deitarem foguetes antes da festa e que acalmassem pois ainda faltava muito tempo e era preciso era tudo correr normalmente. Pois foi, só que nesse fatídico dia 24 de Novembro, ao chegarmos à Ilha de Moçambique, metemos piloto e de imediato ficámos encalhados. O comandante Mariano armado em profundo conhecer do local, assim que o piloto pôs pé no navio, mandou seguir o navio e quando o piloto chegou à ponte de comando só teve que constatar o facto e dizer: - Senhor Comandante, estamos encalhados! Ao que consta, umas bóias de sinalização tinham sido deslocadas da posição anterior e o Comandante não tinha tido isso em atenção! Era, isto, 08h.10min e as manobras para desencalhar o navio duraram até cerca das 13.00h. Eu tinha saído de quarto às 04.00h, tinha-me deitado cerca das 06.00h e às 08h.10min (confirmei depois) acordei com uma trepidação do navio que eu julgava serem as manobras de fundear, espreitei pela vigia do meu camarote, vi o mar, estava normal e deitei-me de novo. Dormitei um pouco, sempre com a trepidação como companhia e às 10.00h o criado preto, Abudo Macussete, veio acordar-me dizendo-me: - Sr. João, acorda para ir para baixo. O navio está encalhado! Rapidamente associei os factos e disse: Ah, sim? Não há problema, mais para o fundo já não vamos! Levantei-me e aí vou eu para a Casa das Máquinas, para manobrar as máquinas. O pessoal do quarto que estava de serviço nunca fazia as manobras pois tinha que estar atento a toda a instalação. Assim, as manobras eram feitas pelo pessoal do quarto que entrava de serviço nas duas horas seguintes, ou nas duas horas antes da hora das manobras. Eu, como entrava às 12.00h, lá tive que ir render os outros. Enquanto íamos parando e arrancando com as Máquinas, íamos ouvindo o barulho dos pedregulhos que os hélices, ou os seus restos, iam arrancando do fundo do mar e faziam bater no costado do navio. Era uma coisa linda de ouvir! E de imaginar! Pelas 13.00h lá se conseguiu safar o navio. Restava saber em que condições ele estaria. Não esperávamos nada bom e o Natal e o Ano Novo, já eram! No mínimo, era a desilusão geral! Punha-se agora outra interrogação. Como é que estaria o fundo do navio. Numa primeira observação, a zona de Ré era a que se apresentava pior, os tanques do duplo fundo tinham sofrido bastante, os rebites aluíram, havia entrada de água salgada e o piso do túnel subiu, devido à subida dos tectos dos referidos tanques. Havia água salgada nalguns tanques de combustível e no pique tanque, de água doce, a vante. No entanto, o navio flutuava e as máquinas trabalhavam, só não sabíamos em que condições. Depois da descarga da mercadoria, levantámos ferro e rumámos a Nacala, só para descarregar carga, após o que seguimos para Porto Amélia onde haveria mergulhadores da Marinha de Guerra que poderiam avaliar os prejuízos no casco do navio. As águas de Porto Amélia eram muito límpidas e calmas, dado que o porto ficava numa baía, a baía de Pemba, a 3ª maior do mundo. Durante esta viagem, Ilha de Moçambique / Nacala / Porto Amélia, deu para ver que as máquinas estavam a aquecer muito e a velocidade do navio era bastante abaixo do normal. A conclusão da vistoria ao casco confirmou que havia alguns rebites aluídos, o que provocava entradas de água nos tanques e os hélices estavam muito danificados, as pás pareciam folhas de couve. Mais descansados, mas não muito, “ao pé coxinho”, rumámos a Lourenço Marques. Já não fomos à Beira porque além de já não irmos carregar nada, a água era sempre muito barrenta e não daria para observar o casco novamente. Em Lourenço Marques tudo ia ser decidido. Onde seria a reparação, onde ficaria o pessoal, etc. Havia várias hipóteses de reparação, no Cabo, em Durban, Lisboa ou Newcastle, onde o navio tinha sido construído. O representante da Administração da CNN, comandante Sales Henriques, deslocou-se a Lourenço Marques e ficou decidido que faríamos uma reparação sumária em Durban e a reparação geral seria feita em Lisboa, na Lisnave. Em Durban, o casco seria reforçado, longitudinalmente com umas (penso que foram 2) vigas, tipo ”skys”, uma espécie de mais duas quilhas. O pessoal, criadagem e afins, de apoio aos passageiros, ficariam em Lourenço Marques, a passar férias de “papo para o ar”, penso que na Inhaca, uma ilha na entrada do porto. A tripulação, propriamente dita, lá tinha que ir com o navio, claro, e pela parte que nos tocava continuávamos a correr quartos em vez de trabalharmos 24 horas e descansarmos 48, como era normal quando estávamos em Lisboa. Chegámos a Lourenço Marques no dia 29/11 e depois de aliviado o navio de toda a carga, saímos para Durban no dia 03/12, onde após uma viagem bastante baloiçada, uma vez que o navio ia bastante leve e o mar estava um bocado alterado, chegámos no dia seguinte. Neste trajecto passámos pelo “Quanza”, em sentido contrário, e era-nos dado observar as vagas que batendo-lhe na proa iam atingir a ponte de comando. Eu cheguei a dizer que se o navio, leve e com aquele temporal, tinha chegado a Durban, também chegava a Lisboa!
Cabe aqui, fazer uma ligeira pausa nesta narrativa e contar o que se passou comigo e com a minha comunicação à família quanto à ocorrência do encalhe. Houve alguma falha da minha parte, mas isso deveu-se também muito a que as comunicações não eram muito fáceis. Primeiro eu não dei tanta importância ao caso como ele veio a ter na comunicação social, em Portugal, e junto da minha família, em particular. Para mim era apenas um acidente de percurso, tudo corria devidamente controlado e eu não queria alarmar a família. Por outro lado, pensava escrever para casa quando chegasse à Beira porque só aí eu podia ir aos Correios. Afinal, não fizemos escala na Beira e tudo se atrasou. Só poderia escrever de Lourenço Marques e com isso já lá iam 5 dias. Nunca pensei em enviar telegrama porque achava que isso iria alarmar quem o recebesse e não iria explicar o sucedido. Eu desconhecia o que era noticiado em Portugal. Pensei que até fosse de algum modo escondida a ocorrência, mas não foi. Assim, quando cheguei a Lourenço Marques, tinha uma carta do meu irmão a “descascar” e a basear-se apenas em informações da CNN e que nunca sabiam se seriam correctas. Mesmo assim, não consegui responder de Lourenço Marques porque ou seria fim de semana ou o feriado de 1 de Dezembro e os Correios estavam fechados. Estava tudo contra mim e só consegui escrever, para casa, já em Durban. 10 ou 12 dias depois do acidente! Foi obra!
(Continua)