segunda-feira, 8 de março de 2010

A terra onde o meu pai cresceu

(E a Espanha, ali tão perto. O castelo de Peñafiel)

A terra onde o meu pai cresceu, mas não muito, pois a sua estatura, exterior, era pequena, era uma terra sem electricidade, tinha candeias e candeeiros, sem água ao domicílio, tinha cântaros e bilhas para a irem buscar às fontes, da Ribeira, das Fontainhas, aos chafarizes, poucos, e aos poços, de Santo António, de São João, da Rua de cima e da Rua de baixo e ao poço Novo, todos parcos de água e nos quais, no Verão, ainda noite, as mulheres atiravam o caldeiro lá para dentro, passavam umas boas horas até encher a cântara, e punham as conversas em dia. Era uma terra de muito trabalho, quando o havia, e de pouco proveito. Onde se passava o dia, e até a noite, por lá, apascentando rebanhos e sofrendo com cada um dos animais, dormindo mal, por aqui e por ali, mal vestidos, em leito de palha, numa qualquer toca ou palheiro mas, só depois do rebanho estar recolhido. E, havia chuva! E, havia frio! E no Verão, que parecia melhor, lá vinham as "malditas" ceifas na sua dureza e com elas as sezões (ou, maleitas) e outros padecimentos. Padecimentos que se tornavam maiores quando atingiam a cachopada. Maus para elas próprias, e aos quais muitas não resistiam (não chegando ao fim do Verão), e para os próprios pais. Mas era uma terra que vivia as suas festas, com grande devoção. Onde se vivia de portas abertas (não havia alarmes, nem empresas de segurança). Normalmente estavam na cravelha mas, quando estas estavam fechadas, era fácil abri-las pois que a chave, deixada num prego por dentro da porta, devido a um orifício suficientemente largo, na parte inferior da porta e que só era tapado com uma pedra para não permitir a entrada de gatos (podiam ir aos chouricitos, claro!), estava acessível a um qualquer.
Era uma terra onde não havia jornais, nem rádio, nem televisão, as notícias corriam de boca em boca e havia pregoeiros. À noite, ao serão, aproveitando a luz bruxuleante duma vela ou até do luar, os pais ainda arranjavam tempo para ensinar, aos filhos, estórias que já os seus pais lhes tinham contado e que são, hoje, grande parte do que deles resta nas nossas memórias.
Também não havia telefone (talvez só na estação de correio) e o correio era feito por um "carreiro" que, além de levar e trazer cartas e encomendas, a 5 km de distância da terra, também fazia o transporte de pessoas, isto tudo num carro puxado a machos (mais próprios para o trabalho do que os cavalos). Os automóveis eram um objecto raro e receado por alguns. As pessoas deslocavam-se a pé, até para grandes distâncias, ou de burro. Eram, realmente, auto mobilizados pois moviam-se eles mesmo! Os homens muitas das vezes, a primeira vez que saíam da terra era para assentar praça e, as mulheres era para levarem os filhos lá "longe", a Idanha-a-Nova, para fazerem o exame da 4ª classe! Esse exame, era uma festa e um orgulho para a família!
Era uma terra onde os Manéis ainda se casavam com as Marias e não com outros Manéis! Ainda não tinham dado o "salto civilizacional" ou lá o que isso é!
Era esta uma terra, onde não havia quase nada mas, onde havia gente! Gente que vivia com o pouco que tinha e onde todos se respeitavam, ajudavam e tinham 2 escolas. Hoje em dia é uma terra que tem quase tudo (água, electricidade, Centro de Dia, Posto Médico, etc.) mas, ironia das ironias, já não tem escolas e quase não tem pessoas!
Mantém-se nela o ar que se respira, a recordação doutros tempos e o amor que os filhos da terra e seus descendentes lhe devotam!
Seu nome, Salvaterra do Extremo!


Este texto é a minha contribuição para a Blogagem Colectiva do blogue http://aldeiadaminhavida.blogspot.com, " Onde cresceu o meu pai", que decorre de 10 a 31 de Março.
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quarta-feira, 3 de março de 2010

Nasci ...




Aqui estou eu, no dia do meu 5º mês! Domingo de Verão, em Salvaterra! As minhas “fadas madrinhas” (a Luísa Sousa e outras), arrancaram-me das mãos da minha mãe e, qual “menino nas mãos das bruxas”, levaram-me rua acima, a um retratista que andava ali p’rá rua do Castelo. Puseram-me um fio ao pescoço, coisa que não uso nem nunca usei e, desavergonhadas, arrancaram-me as roupinhas! Pela minha expressão se pode ver que, fiquei sem palavras…



Hoje é 2ª feira, dia da Lua, do mês de Março, em homenagem a Marte, deus da guerra, e dedicado a São Marino (entre outros). É Lua Nova, na fase crescente 6, o Sol nasceu às 05h e 59 min, vai pôr-se às 17h e 21 min, Peixes é o signo zodiacal e Serpente o signo do horóscopo chinês. Os planetas dominantes são Neptuno e Júpiter, a cor é o Turquesa, verde-mar, a pedra é a Água marinha e o número base do nascimento é o 3 (três). O significado do número 3 diz que: “Serei um incurável optimista e que tentarei transmitir aos outros esse ponto de vista fundamental. Dado que inspirarei simpatia e confiança, estarei capacitado para desempenhar lugares de primeiro plano e que decerto não me será difícil fazer muitos amigos, incluindo seguidores”. O mês de Março foi durante muito tempo o primeiro mês do ano. É quando começa a Primavera, daí o Setembro, que é o sétimo, o Outubro, o Novembro e o Dezembro.
Decerto, um dia como tantos outros mas que além de, pelo calendário Gregoriano, ser o 3 de Março de 19.. (d. C.), é também, pelo calendário natural, o 13 de Fevereiro de 5955 (era do Mundo) e ainda o Dia Juliano nº 2.430.057. A este dia não lhe falta nada!

O país está ainda sob o terrível efeito do ciclone, com rajadas de vento de velocidade da ordem dos 200 Km/hora, ocorrido no passado dia 15 de Fevereiro (Sábado Magro), entre o meio-dia e a uma da tarde.

O governo, porém, estava atento e, para combater a desgraça, logo no dia 20 de Fevereiro faz sair o Dec. Lei nº 31.147, o qual abre “um crédito de 20.000 contos para despesas provenientes da reparação de estragos e prejuízos causados pelo ciclone de Fevereiro de 19.., incluindo a intensificação de obras públicas para atenuação da crise de trabalho.”

Em plena época de Carnaval, Salazar mandou proibir todos os festejos. A hora é de trabalhar e não de festejar. Mesmo assim, o Carnaval de Loulé (que desde 1902 era chamado de “Carnaval civilizado”), atendendo a que estava muito arreigado na população e a que a sua receita se destinava a fins beneméritos, foi autorizado.

A Guerra continua, com Carnaval ou sem ele e assim; no dia de Carnaval, tropas britânicas já tinham capturado Mogadíscio, na Somália italiana; no dia 1 de Março, a Bulgária tinha aderido ao Eixo, assinando o Pacto Tripartite (Alemanha, Itália e Japão) o que fez com que ontem, dia 2, o exército alemão tivesse entrado na Bulgária procedendo à sua ocupação, instalando o seu quartel general em Chamkuri, a 100km de Sofia e encerrando as fronteiras.

E é este o cenário que o Mundo tem para me oferecer!
Tenho que tomar uma decisão, porventura não a melhor, e vou escolher o dia 3. Deus sabe porque razão. Talvez pela mesma razão que ele deve saber porque, pela vida fora, algumas vezes iria tomar as piores decisões, julgando serem as melhores. E, outras vezes, nem uma coisa nem outra!


Aqui, em Salvaterra do Extremo, a vida gira dentro desta normalidade! Ontem, domingo, dia 2, durante a tarde, o ti’António “Chavelhão” veio convidar o meu pai para ir passar uma carga (uma arroba) de farinha. Era o contrabando para o lado espanhol, a Zarza la Mayor. O meu pai que trabalhava de jornaleiro, ou seja à jorna, viu ali uma maneira de ganhar alguns parcos cobres, que bem necessários eram e aceitou o trabalho. Depois do jantar pediu à minha mãe para não fazer barulho a lavar a louça pois que ele se ia deitar para descansar um pouco. A minha mãe que durante o dia tinha andado a caiar a cozinha, para não o incomodar, deixou a louça no cesto e já não a arrumou na cantareira. À meia-noite, o meu pai saiu de casa e, carga às costas, só houve que escolher a passagem para o outro lado da fronteira. “Plomes” (deturpação de Pelames, local de tratamento das peles, curtumes), “Salto da Cabra” ou “Vale de Idanha” eram itinerários possíveis. O Vale de Idanha era muito utilizado, principalmente pelas espanholas, que o contrabando também era de lá para cá. Uma noite, a Clementa e as duas irmãs, três filhas da Dona, uma espanhola, não conseguiram vencer a força da água da ribeira e mãos agarradas, em desespero, foram corrente abaixo.
O dia 3 está a chegar! Esta noite andou um baile em casa do “Papum”. Quando acabou, às 2 horas da manhã, a Luísa Sousa e outras moças do seu “partido” bateram à porta. A minha mãe estava deitada e ao perguntar “Quem é?”, respondeu-lhe a Luísa Sousa “Olha, eu estou levantada e é para acordares também!”.
Adivinhando o que se aproximava, seriam umas 3 ou 4 horas da manhã, a minha mãe pôs água ao lume para o meu primeiro banho e, candeia na mão, se bem que estivesse uma noite de Lua Nova, saiu direita às Caganchinhas a chamar a prima Maria Cândida, para que esta por sua vez fosse chamar a ti’”Cambalhotas”, “parteira de serviço”.
Bateu à porta, respondeu o ti’Joaquim “Vapor”. A minha mãe disse ao que ia e ficou à porta, pelo que ele perguntou se ela queria ter o filho ali à porta dele.
Voltou para casa, passou pela porta da ti’Encarnação, que vendia carne e que no dia seguinte no seu modo espanholado de falar, que não tinha perdido, lhe disse que até podia ter tido o filho à porta dela e que ali lhe trazia uns “cotunhos” do porco para fazer sopa. Um arrátel de chocolate quase todos davam. Era para fortalecer!
Mas, voltando ao nascimento, propriamente dito, a ti’”Cambalhotas”, a minha avó Amélia e a prima Maria Cândida, lá tomaram conta da ocorrência. Cerca das 6 horas da manhã, o Sol nascia, e eu aproveitei, tinha cumprido o estágio dos 9 meses e nasci também! Estava escrito, para o bem e para o mal, o dia 3 foi o escolhido para vir ao Mundo, virei o rabo para a Lua, segunda-feira era o meu dia mas, nas mãos da ti’”Cambalhotas”, fazendo jus à alcunha, esta deve ter-me virado ao contrário. Ninguém me avisou do que se passava cá fora! Entrei no Mundo, literalmente de olhos fechados, e assim iria andar muitos anos. Quando os começasse a abrir já ia ser um pouco tarde!
Mas, agora, aqui estou, pronto a assinar o contrato que espero vitalício mas, com termo em aberto. O Criador escolherá a data!
É verdade, já me esquecia, sou um menino!
Depois de me lavarem e fazerem uma observação minuciosa e conveniente, embrulharam-me na baeta e levaram-me à minha mãe, não conseguindo esconder uma certa reserva quanto a uma possível deficiência. Tal facto não passou desapercebido à minha mãe e ali estava eu à espera do veredicto da reunião de “sábios” anatómicos porque haveria dois dedos, em cada pé, que estariam mais juntos do que estaria previsto nos “regulamentos”. Tudo falso alarme e lá fui eu para o primeiro sono ao “ar livre”! No fim a ti’”Cambalhotas” apresentou a conta. Almoço e um avental, era o que dizia o regulamento da “Ordem das Parteiras”!
Entretanto, regressou o meu pai, cansado da tarefa mas satisfeito pela novidade que o esperava! Pouco tempo teve para gozar o momento e saiu de novo, que o Sol já raiava! Agora, ia direito à Devesa onde o esperavam as cabras do Alexandre Romão que aí eram deixadas a pernoitar e que havia que levar a pastar! A vida continuava e havia mais uma boca a sustentar!
Chamaram-me João, como os meus, avô e bisavô, maternos (João Valente e João Belchior).
E, desde a "Quélhinha" até à "volta da estrada" e ao "Castelo", por toda a Salvaterra, correu de boca em boca a nova de que a Maria "Parralinha" teve mais um cachopo!
Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

20 de Fevereiro de ...

Leonor Magro
20/02/1886 --- 29/03/1970



Aos 45 anos. Foto de BI (talvez a sua primeira foto)

Pobre, mais pobre ficou quando, apenas com 33 anos, viúva, com 4 filhos, o mais velho, uma filha, com 7 anos e o mais novo com pouco mais de 1 ano, foi mãe e pai! Valia-lhe a ajuda da filha que, com apenas 7 anos, tomava conta dos 3 irmãos, o mais novo dos quais viria a falecer pouco depois.

A servir, a contrabandear (coisas de pouca monta mas que sempre ajudavam) e a encarregar-se dos filhos até à sua entrada no serviço militar (precipitada pelas dificuldades económicas) acompanhando-os na sua emigração para Lisboa, nunca perdeu a atitude matriarcal mesmo depois deles constituírem família. Estava-lhe arreigado aquele sentimento de protecção dos seus. Possuidora de dotes de trabalho, mormente na preparação das carnes de matanças e “obras” de cozinha (simples, mas gostosa), aliava a isto um grande orgulho na sua descendência. Eram a sua obra!

Quando a vida e os filhos a “obrigaram” a sossegar mais, apesar dalguma surdez e falta de vista, estava sempre atenta e desatou a fazer renda, deixando-nos verdadeiras “obras de arte”, coisa que não fazia em nova, decerto por falta de tempo.
Apesar de analfabeta, tinha um espírito muito vivo e perspicaz. Nos últimos tempos de vida, após um AVC na noite de Natal ficou acamada, e acabou por se finar passado cerca de um ano e meio, num domingo de Páscoa. Coisas do destino!

É pois com muito amor
e, nisso não estou só,
que lembro uma Leonor,
uma mulher e minha avó!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

19 de Fevereiro ...

José Celorico
19/02/1906 ---- 29/04/1991


Sem pai aos 15 anos, o segundo de 6 irmãos e o primeiro de 2 varões, cedo teve de se fazer à vida, o que naquele tempo não era tão estranho quanto isso.
Com uma esporádica passagem pelos bancos da escola, um luxo que a vida não permitia, ainda na infância, foi pastor e jornaleiro até à ida para o serviço militar.



















Na tropa, onde entrou como refractário, situação só possível devido à falta de informação e comunicação da época, foi maqueiro e impedido. Terminado o serviço militar, casou e fazendo frente à desdita, pastoreou, cavou, ceifou e contrabandeou, até ao dia em que emigrou com mulher e os dois filhos, rumo à cidade capital do Império. Não sem antes ter uma passagem de 6 anos, digamos que um estágio, nos arrabaldes. Aí foi servente de pedreiro, cavador, e jornaleiro. Uma vez na cidade, agora já assalariado num organismo do Estado, ainda foi espalhando o seu suor, em “part-time”, como taberneiro, bagageiro, jardineiro. Enfim, a tudo o que pudesse acrescentar um pouco aos seus parcos proventos ele não virava a cara. A vida, não era doce! Mesmo que a saúde, por vezes não o ajudasse muito. A asma era o inimigo!
Muito embora não fosse muito hábil de mãos, e as suas obras pudessem não ser uma perfeição, ainda fazia umas incursões na função de sapateiro, onde não se saía mal de todo.
A idade foi avançando, a doença não o largava, o coração também lhe pregava partidas e a hora da reforma soou. Aos 70 anos!!!
Quase destroçado, uma vez que os problemas do Mundo “precisavam” de si, levou algum tempo a recompor-se. Passada essa fase, iniciou uma “reforma agrária” onde desbravou um terreno de calhaus e criou uma horta. Empresa essa que lhe desgastou energias e o deixou quase de rastos. A terapêutica parecia boa mas o resultado ia sendo desastroso! Foi vê-lo, então, a semear e colher o pouco que a terra lhe dava, fazendo-o regressar às origens mas, agora, já sem a vitalidade dos seus 20 anos. Ao princípio chegou a parecer obsessão! E, aos domingos, transístor no bolso lá ia a apanhar sol e guardar a sua “herdade”. Ouvia o relato de futebol, coisa a que nunca tinha ligado e que agora o ajudava a passar o tempo e a ter assunto de conversa. Jogar as cartas num qualquer banco de jardim, não era para ele.
Teve a alegria de ver o nascimento de um neto e três netas, cuja infância sempre acompanhou mas, já não chegou a ver o nascimento da primeira bisneta pois o seu coração pregou-lhe uma partida, que havia de ser a última, acabando por se finar depois de cerca de duas semanas de hospitalização.


Tanta vida, já passada,
e da cabeça não me sai,
está em mim, entranhada,
a memória de meu PAI!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Ciclone de 15 de Fevereiro


Estupefactos perante as calamidades que vão acontecendo por este nosso mundo, vamos esquecendo aquelas que nos têm atingido. E não falo das calamidades políticas, falo das naturais!
Há cerca de 2 anos, resolvi indagar, por conta própria, o que se encontrava escrito acerca do "Ciclone". Após algum esforço, consegui alguma coisa que julgo de interesse, ainda que houvesse muita informação baralhada. Hoje, constato que já há bastante mais informação, graças, principalmente, à santa internet.
Aqui deixo o resultado da minha pesquisa que, espero, seja de utilidade para mais alguém.




Hoje, dia 15 de Fevereiro (Sábado Magro), entre o meio-dia e a uma da tarde, o país está sob o terrível efeito dum ciclone, com rajadas de vento de velocidade da ordem dos 200 Km/hora. A pressão atmosférica desceu aos 952,1 milibares (1013 milibares é o valor normal) e a tempestade foi inevitável! A destruição foi imensa, a luz eléctrica apagou-se, o país ficou sem comunicações, casas completamente destelhadas, principalmente chapas de zinco, foram arrancadas e voaram qual folhas de papel, milhares de árvores derrubadas e, estima-se, mais de 200 pessoas mortas. Uma catástrofe!

No Porto, o comboio ficou parado em cima da ponte D. Maria.
No Jardim João Chagas (Cordoaria), só uma árvore ficou de pé, a chamada Árvore da Forca, um velho ulmeiro. Resistirá até 1986!

Em Lisboa, o comboio da linha de Cascais teve que parar, entre Caxias e Paço de Arcos e aguardar que a tempestade acalmasse para poder prosseguir viagem pois o mar, enfurecido, galgava a linha do comboio.
Um hidroavião Clipper, afundou-se na doca de Cabo Ruivo.
A nau “Portugal”, virou-se.
A figura da proa do Padrão dos Descobrimentos, o Infante D. Henrique, ainda em estafe, decerto para a Exposição do Mundo Português, caiu ao Tejo e perdeu-se.
A cerimónia de lançamento da quilha do petroleiro para a Marinha, o “S. Brás”, foi adiada.
Dos arquivos da Companhia União Fabril (CUF) muita documentação, porventura muito importante para escrever a história da industrialização em Portugal, fica destruída ou desaparece.
Mais de cem típicas fragatas do Tejo, afundaram-se.
O bairro económico Dr. Oliveira Salazar (mais tarde chamado de Bairro do Alvito), construído pela Caixa de Socorros e Reformas dos Operários e Assalariados da Câmara Municipal de Lisboa, destinado a alojar 152 famílias de operários e assalariados, começado em 1933, está já concluído desde 1938. Curioso e estranho, por incrível que pareça, o Estado Novo ainda não arranjou tempo, nem disposição, para o entregar a quem dele necessita. Continua por habitar! O ciclone aproveitou este deixa andar e a degradação que nele se instalou e, para ajudar, arrancou algumas portas e janelas das casas. Em 1942 ainda se andará a discutir o porquê desta estranha situação, sem fim à vista, prevendo já um gasto de cerca de 1.000 contos, nas obras de reparação!
O posto náutico do Sport Algés e Dafundo foi destruído.
O barracão, sede do Grupo Sport Chinquilho Cruzeirense, colectividade a entrar no seu 13º ano de existência, ficou completamente destruído. O telhado voou.
O Sport Lisboa e Benfica adiou as comemorações do seu 37º aniversário.
No Colégio Militar, o edifício do ginásio foi destruído. Só irá ser reconstruído mais tarde e inaugurado no dia 28/05/1949, pelo Presidente da República, General Óscar Carmona. Na cerimónia de inauguração, o ministro das Obras Públicas, eng. Frederico Ulrich, dirá: “O Colégio Militar fica dispondo das melhores instalações de ginástica do país”.
O Forte de Nossa Senhora das Mercês de Catalazete, também conhecido como Forte Novo das Mercês, Bateria do Catalazete ou Forte do Catalazete que, agora com o Estado Novo, está a ser utilizado pelas famílias de diversos funcionários da Direcção do Serviço de Obras e Propriedades Militares, foi severamente danificado.
Em Carcavelos, na quinta da Companhia do Cabo Submarino, mais de 800 árvores que foram plantadas anos antes, para obstar à falta de carvão, foram arrancadas e destruídas. Mais tarde, com a retirada da Companhia, nessa quinta ficará o St.Julian’s School.
O Jardim Botânico sofreu danos consideráveis. Muitas árvores foram derrubadas e inúmeras plantas sofreram com a violência do vento.
No Jardim da Estrela (Jardim Guerra Junqueiro), cerca de 200 das suas mais bonitas árvores, foram derrubadas. Isto vai obrigar a que se plantem cerca de 300 árvores de sombra, escolhidas entre as variedades de maior porte.
Em Moscavide, cerca das 12h e 30 min, um miúdo de 12 anos, filho da família Melenas, originários de Maçores, (próximo de Barca de Alva), porque a sua mãe estava no hospital aguardando o nascimento de mais um filho, estava de volta do fogareiro a petróleo a cozer batatas com bacalhau, para o almoço do pai (que chegaria do trabalho) e dos dois irmãos mais pequenos. Nisto, caiu a chaminé mesmo em cima do tacho das batatas. Só teve tempo de agarrar nos irmãos e fugir escada abaixo, completamente apavorado!

No Paço de Vitorino das Donas, construção do séc. XVIII, em estilo rocócó, perto de Ponte de Lima, São derrubadas as pedras de armas do frontispício. Também o seu jardim, talvez único na região, devido ao seu conjunto escultórico e às espécies vegetais originárias de todo o mundo, foi bastante danificado.

Em Amarante, a igreja do Mosteiro de S. Gonçalo foi gravemente atingida.

Em Calvão, Chaves, a igreja paroquial, muito imponente, foi destruída. Será reconstruída ainda durante os últimos anos da década de 40.

Em Vila Real, o Mercado Fechado foi destruído por completo. Em seu lugar será edificado o enorme Palácio dos Correios, Telégrafos e Telefones.

Em Matosinhos, os Bombeiros Voluntários de Leixões tiveram imenso trabalho para acorrerem a tudo e a todos, merecendo o louvor da Câmara Municipal de Matosinhos e a atribuição de medalhas de cobre a alguns dos que mais se distinguiram.
No porto de Leixões, a doca nº 1, já construída, serviu de abrigo a alguns navios. A mesma sorte não tiveram, um vapor brasileiro e outro grego. Ancorados na bacia, fora da doca, não aguentaram o temporal e garraram.

Em Vilar, Aveiro, os Mónicas viam um dos seus moinhos de vento, um que abria e fechava como um guarda-chuva, ir pelos ares, indo parar, parte dele, à Agrinha. Como seu pai, António Mónica é, ele mesmo, afamado construtor de moinhos de vento.

A Igreja Matriz, de origem românica, dedicada a Santa Maria, em Longroiva, Meda, Guarda, teve grandes prejuízos que obrigarão a restauro.

Em Almofala, Figueira de Castelo Rodrigo, Guarda, ruíram as paredes do Templo romano, construído no séc. II, também conhecido por Torre das Águias, Torre dos Frades ou Torre de Aguiar.

Em Mirzela, Almeida, Guarda, caiu o cabanal, ruíram paredes e voou parte do telhado da casa da família Peixoto.

Em Coimbra, diz-se que o ciclone foi de tal intensidade (registou ventos máximos na ordem dos 135 Km/hora), que produziu, em poucas horas, estragos com particular incidência na região centro do país, ficando cortadas todas as comunicações com o exterior. A pedido da Administração dos C.T.T., o Laboratório de Física da Universidade cedeu o emissor universitário a fim de se poderem manter as comunicações oficiais. De notar que a Emissora Nacional proibia o funcionamento a todos os emissores radioamadores, desde 21 de Setembro de 1939, no início da 2ª Guerra Mundial. Este, contudo, mantinha-se operacional. Apesar de tudo, também outras estações radioamadoras se envolveram na ajuda necessária.

Em Castelo Branco, o Antigo Recolhimento de Santa Maria Madalena, na Rua dos Cavaleiros, edifício do século XVIII, ficou arruinado. O custo das futuras obras orçará em 1.267$50! Uma fortuna!

Em Arganil, o Cine-Teatro Arganilense, que tinha sido construído em 1922, modesta construção com a fachada em alvenaria, os lados e fundos de madeira com cobertura de zinco, desapareceu com a violência do ciclone.

Em Constância, parte da arcaria do 2º piso da Casa dos Arcos/Casa de Camões foi destruída.

Em São Miguel do Rio Torto, Abrantes, também o ciclone fez bastantes estragos.

Ao largo de Peniche, o motorista Samuel Corujo, de 19 anos de idade, é um dos sobreviventes do naufrágio do “Patriotismo”. A partir de 1982, na reforma, usando de muita paciência e perícia, irá passar o seu tempo fazendo modelos de barcos e metendo-os dentro de garrafas.

Na Marinha Grande, centenas de árvores foram derrubadas.

Na Companhia das Lezírias, à excepção das Portas da Ponta da Erva, estão destruídos todos os valados e diques que por ordem dos accionistas haviam sido denodadamente reconstruídos. No relatório da direcção, parafraseando a obra da americana Margaret Mitchell, tão em voga, escreveu-se “E tudo o vento e a água levaram”.

Na aldeia de Caneiras, freguesia de Marvila, na margem direita do Tejo, perto de Vila Franca de Xira, José Pelarigo, de cerca de 19 anos de idade, sempre ali vividos, viu a sua barraca, assente sobre estacas e que o ciclone do dia 15 não tinha destruído, ir levada pelas cheias do Tejo no dia 20, pelas cinco horas da manhã, estando em casa 16 pessoas. Só tiveram tempo de fugir para o meio de uma vinha onde, em cima de um monte de vides, ficaram até ao nascer do dia.

Em Alhandra, a passagem devastadora do ciclone fez desaparecer parte da vila e dos seus mouchões, havendo largas dezenas de vítimas mortais e feridos graves. Soeiro Pereira Gomes, o escritor que editará em Novembro o livro “Esteiros”, com ilustrações de Álvaro Cunhal, tripulando uma frágil barca do Tejo, com mais três trabalhadores, foi um dos que se empenharam intensamente nas operações de salvamento conseguindo salvar, do Mouchão de Alhandra, mais de vinte trabalhadores.
Quase a fazer 20 anos, e seguindo este exemplo, também Joaquim Batista Pereira, menino da borda d’água, mais tarde uma lenda da natação portuguesa, fez vários salvamentos, a nado.

No Bombarral, a Mata sofreu enormes prejuízos. Foram reunidas 250 toneladas de madeira de aderno, medronheiro e carrasqueiro, entre outros.
Mais tarde irá verificar-se que o ciclone foi um importante contributo para a desflorestação do país. A destruição vê-se, de Norte a Sul!
O Teatro Eduardo Brazão, inaugurado em 1921, sofreu prejuízos tais que lhe valeram um subsídio do governo. Pelos tempos fora irão ser feitas algumas obras que lhe irão desvirtuando a traça original. Depois de profundas obras de Recuperação e Restauro, será reinaugurado no dia 29 de Junho de 2004.

Em Sintra, os serviços florestais iriam ter um intenso trabalho para fazer a substituição de muitas das árvores derrubadas. À volta do picadeiro, as magníficas sequóias vindas da América do Norte foram todas derrubadas. Foram poupadas as magnólias.

Em Setúbal, no Sado, amarou de emergência um “Short Sunderland”, grande hidroavião quadrimotor inglês, com um motor inoperativo. A parte baixa da cidade ficou completamente alagada.

Em Alcochete, os estragos obrigam a Câmara a pagar a limpeza da Escola Conde de Ferreira (no Rossio), pelo que foi decidido afixar editais anunciando a venda das árvores derrubadas. Os danos na vila, tanto públicos como privados, são avultados e houve barcos ancorados que, entrando pela vila adentro, foram arrastados até ao Largo de S. João. Também no Rossio, muitas casas foram inundadas.

No Torrão, Alcácer do Sal, o ciclone também deixou a sua marca.

Artur Domingos Garcia, alentejano de Gáfete, Crato, 40 anos de idade, vive em Benavila. Poeta humilde como ele próprio se define, relembrando o ciclone, escreve dirigindo-se a sua filha, no seu “Dicionário de uma Família Pobre de Pai para Filhos”: “Este ano… foi um ano terrível para os que se encontravam vivos; mas não nos bastava uma Guerra Europeia prestes a ser mundial se não agora mais uma guerra natural”.

Alvalade, no Alentejo, foi violentamente fustigada. Muitas habitações e edifícios públicos da vila foram danificados.

Em Montemor-o-Novo, a sede da Sociedade Antiga Filarmónica Montemorense “Carlista”, ficou em ruínas.

A 13 Km de Évora, a igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, igreja matriz, grandemente danificada, foi alvo de profanação.

Em Santa Vitória, (Barragem do Roxo), Beja, a Igreja Matriz, fundada em 1284 e reconstruída várias vezes ao longo dos tempos, sofreu avultados danos e só em Maio de 1960 irá ser reconstruída, graças à senhora Maria Vitória Almodôvar de Paiva Raposo, devota a Nossa Senhora Santa Vitória.

No Algarve os amendoeirais sofreram um rude golpe.
Em Tavira, o Arraial da Armação do Medo das Cascas que começava a sofrer os efeitos da má orientação da barra artificial, desde 1931, acabou de ser destruído.

O governo, porém, estaria atento e, para combater a desgraça, logo no dia 20 de Fevereiro faz sair o Dec. Lei nº 31.147, o qual abre “um crédito de 20.000 contos para despesas provenientes da reparação de estragos e prejuízos causados pelo ciclone de Fevereiro de 1941, incluindo a intensificação de obras públicas para atenuação da crise de trabalho.”

Em plena época de Carnaval (25 de Fevereiro). Salazar mandou proibir todos os festejos. A hora é de trabalhar e não de festejar. Além da desgraça que se abateu sobre o nosso país, chegam também os ecos da guerra que lá fora se desenrola e com eles as privações de toda a ordem. Mesmo assim, o Carnaval de Loulé (que desde 1902 era chamado de “Carnaval civilizado”), atendendo a que estava muito arreigado na população e a que a sua receita se destinava a fins beneméritos, foi autorizado.

Foi isto no dia 15 de Fevereiro, mas de 1941!!!!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CHURRASCO DE CARNAVAL ...


(A minha descendência, Carnavalando!!!)


Contra o que possa parecer, não sou folião compulsivo. Gosto de brincar todo o ano, sem hora nem dia marcado, desde que tal se propicie.
Véspera de Carnaval, no local de trabalho, palavra puxa palavra, vai de combinar uma noite de borga! Caramba, a vida não era só trabalho! Juntámos meia dúzia de aderentes e ficou combinado. Depois do jantar, reuníamo-nos no Rossio, para dar início à rambóia.
Havia um primeiro abastecimento, pois a noite ia ser longa. Entrámos na Ginginha e, vai um copito. Tudo jóia, segue a ronda, e lá vamos a caminho da Casa do Alentejo, ali ao Bairro Alto. O bailarico estava fraco, as damas ocupadas e o bilhete não era barato. Vamos a outro que este não dá! Rua abaixo, direitos à Casa das Beiras, onde o panorama não era melhor. Talvez no Cais do Sodré, de má fama. Estavam os bares cheios e pouco convidativos. A meia-noite já era e a volta continuava. Voltámos ao ponto de origem e começámos a discutir novo plano de ataque, mas agora íamos andando, para não perder a embalagem. E foi nestas deambulações que, lá para as 2 horas daquela linda noite, alguém deparou, ali mesmo, numa travessa, quase escondido, um placard luminoso onde se lia “Bomjardim”. E o anúncio falava em frangos de churrasco e não sei que mais. Nova reunião de emergência, donde saiu sapiente resolução. - Ficamos já aqui! Um franguinho de churrasco, vem mesmo a calhar! Deu-se a aprovação, por unanimidade e de pé, apesar das pernas já começarem a acusar algum cansaço.
Sentados à mesa, mandámos vir a dose do franguinho, bebemos uns púcaros, dissemos umas larachas e, lá para as 4 da manhã, terminámos a actuação.
Fizemos as despedidas e cada um regressou a sua casa. Quando nos voltámos a encontrar, no local de trabalho, esta noite de Carnaval foi o tema das conversas. Uns, tal como eu, tinham “gozado” que nem uns perdidos, outros, coitados, caiu-lhes mal tanta diversão e diziam que quando se foram deitar viam tudo a andar à roda e, claro, chamaram pelo “Gregório”. Foi tudo prejuízo. Mal empregado frango!
Para Carnaval, não se pode dizer que não tenha sido “bem divertido”!


Este texto é a minha contribuição para a Blogagem Colectiva do blogue http://aldeiadaminhavida.blogspot.com, " O Carnaval e as suas Tradições", que decorre de 10 a 28 de Fevereiro.
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

UMA HISTÓRIA DE CARNAVAL / Carnaval, quase na grelha ...














( As minhas "infantas" Carnavalando!!! Há muito, muito tempo...)

Num belo dia, a seguir ao almoço, em vésperas de Carnaval, na Escola Industrial Machado de Castro, deu-se a “estranha” coincidência de 4 turmas não terem as respectivas aulas, por falta dos professores. Este, é um problema já antigo! Esta escola, a esse tempo, vivia em regime de “união de facto” com a Manuel da Maia (ciclo preparatório). Acontece que 3 anos antes o regime era uma espécie de “ménage à trois”, pois também incluía a Josefa de Óbidos (sexo feminino). O regime não era completo porque só tinha o usufruto de algumas salas, quer dum lado quer do outro. Misturas, não havia e por isso ainda hoje se notam os traumas. Os rapazes não sabiam o que eram raparigas e vice-versa. Só com o advento da democracia é que passaram a saber. Por isso, agora querem casar uns com os outros e umas com as outras. É um salto civilizacional. Naquele tempo havia grandes “engenharias” para estabelecer os necessários contactos. Ainda não havia telemóveis e altas tecnologias. Eu tinha 12 aninhos e ali estava, também sem aulas. Foi então que alguns “engenheiros” propuseram uma ida até à Josefa de Óbidos, empresa que seria decerto bem sucedida uma vez que a separação, 2 anos antes, tinha sido sem corte de relações. Pelo contrário, agora eram mais fortes, devido à distância que nos separava. Proposta aceite, aí vão cerca de 90 “galfarros”, em fila indiana, batendo nas pastas (ainda não havia mochilas), pela rua fora. Atravessávamos as ruas, serpenteando, o que era uma “delícia” para os automobilistas pois não podiam andar e assim fomos percorrendo os, talvez, cerca de 2 quilómetros que nos separavam das “miúdas” da Josefa.
Lá chegados e perante o alvoroço completo das “miúdas” e o desespero das “contínuas” (hoje, técnicas especiais altamente qualificadas), encostados à parede fronteira, ali fomos despejando os nossos gritos de guerra, cantando não as Janeiras mas, talvez, as “Carnavaleiras”. Estávamos a obter grande sucesso, eis senão quando, à esquadra de Polícia, uns 50 metros abaixo, chegou a notícia de que andariam uns terríveis energúmenos à solta. Foi o fim! A Polícia pediu reforços, pessoal que estava a dormir, fez o cerco pela rua de cima e a de baixo. Ainda havia uma rua de saída, mas não muito e um beco cujo melhor esconderijo era um galinheiro, coisa que eu logo rejeitei.
O filho da minha mãe podia ir preso, mas ia limpo!
Vi alguns, que não tinham material escolar com eles, escaparem como simples passantes, pela tal rua e fui-me resignando com a minha entrega às autoridades.
Resultado da operação: cerca de 30 “perigosos” delinquentes, davam entrada na esquadra da Fonte Santa. Também, já lá não cabiam mais!
Na esquadra, o Chefe estaria a pensar, lá para com ele, como é que se ia ver livre daquela miudagem. Fez uma prelecção, que tínhamos desafiado a autoridade e porque torna e porque deixa e concluiu com palavras sábias: - Os menores de 16 anos vão para a Tutoria (casa de correcção) e os outros, claro, “vão dentro”!
Foi a vez do único que tinha mais de 16 anos falar, em nome da rapaziada, invocando tudo quanto a sua imaginação e verve permitiam em favor do “maralhal”. Devido a isso, ou a qualquer outra coisa, o Chefe anuiu a que cada um pagasse uma multa, uns “míseros” 25 tostôes, e sairíamos em paz. Pois é, mas os tempos já eram de crise e o João não tinha dinheiro nem para mandar cantar o ceguinho. Havia que descobrir uma saída para a crise! Havia várias hipóteses, sendo uma delas a de que conhecia um polícia dessa mesma esquadra mas, esse polícia era da minha terra e amigo da minha família. Se o metesse no caso, safava-me da multa mas apanhava uma tareia das antigas. Esta, não dava!
Deixei-me ficar para o fim e comecei a contar uma história triste e desgraçada, em que eu tinha sido “apanhado na rede” apenas por mero acaso. Eu, até que ia visitar uma tia que morava logo ali em baixo (isto, era verdade) e ia mais um colega meu, e tratei logo de arranjar um, que não se fez rogado. Com algumas lágrimas à mistura, a história pegou e o chefe pediu a um polícia para nos acompanhar de volta à escola, não nos fosse acontecer algum percalço no caminho. Multa perdoada e guarda pessoal, o que é que eu queria mais. Passámos no local de cobrança com algumas reticências do cobrador mas, agora de costas quentes, pusemo-nos ao fresco.
Uma vez cá fora, o problema foi livrarmo-nos do acompanhante. A certo custo lá o convencemos de que já não havia problema, éramos uns homenzinhos e podíamos ir sozinhos!
E, aqui está o que foi um “inesquecível” prelúdio do Carnaval!