quinta-feira, 28 de julho de 2011

E, já passaram 40 anos ! ( 3 ) ( "EU" )

Espero que não me apelidem de narcisista mas mal ficaria, também, se aqui não colocasse os versos que me auto dediquei e que resumem um pouco da minha passagem pelo IIL!

“ EU “
( Auto biografia )

Um pouco de recurso
para aqui vim um dia.
Para tirar um Curso
de Máquinas e Electrotecnia!

Para cumprir este fado,
( canção assaz nacional ),
logo fui mentalizado
no Cálculo Vectorial!

Ao 2º Ano passei,
continuei a caminhada!
Em Tecnologia, fui rei,
mas esta era "falada"!

Porém, Mecânica e Física Especial
muito me fizeram sofrer.
Mas, num "sprint" final,
ao 3º ano fui ter!

Isso estava eu a pensar!
Enfim, foi puro engano.
Nem me quero lembrar
que voltei ao 1º Ano!

Cumpriu-se então a minha sina
e a Química fui tirar.
Escolhi, logo, a Etelmina.
Só ela me podia salvar!

Mais um ano subi,
( que, afinal, foram dois ).
Mas, não fiquei por aqui,
porque outro veio depois!

Ainda, no 3º Ano,
e ao dizer isto não peco.
Órgãos, pelo sistema "Americano",
é só de copiar o "boneco"!

Electricidade, no mesmo Ano,
ainda me faz lembrar
os relatórios para o Emiliano
e os pontos para dispensar!

Para aqui estou, agora,
com o resto da rapaziada.
Mas, já nos vamos embora
pois não fazemos cá nada!

Também os versos que vos dedico
Encerram alguma verdade,
e deste vosso amigo, Celorico,
levam um abraço de amizade!

( The End )

quarta-feira, 27 de julho de 2011

E, já passaram 40 anos ! ( 2 ) ( A "malta" do 4º - 1ª )

E, já que relembrei os professores, não ficará mal relembrar os meus colegas finalistas. Infelizmente, salvo 2 ou 3, nunca mais lhes pus a "vista em cima"!
No entanto, os versos do "Livro de Curso", cá estão!


(Foto tirada durante o "Baile de Finalistas" e onde se pode ver, também, rapaziada da outra turma)

A "MALTA" DO 4º - 1ª

Se a memória não me falha
vou apontá-los, um a um.
Vou apertar bem a malha,
para não deixar fugir nenhum.
Para começar, temos o Nunes
e também temos o Antunes,
mais conhecido por Carlos Alberto.
Mas, Alberto, há um mais esperto.
O Barata, para contestar está por ali.
Apresento-lhes também o David,
que a uma boleia não se furta.
Temos o Ramilo e o Murta,
este é atleta de eleição!
Não me esqueço também do Roldão
e a troupe que com ele andava
e o Madeira encabeçava.
Continuemos, então.
Falemos do Simão
e do Ernesto. Que tal!
Falemos também do Vidal,
senhor de sono pesado,
mas que também cumpre seu fado.
O Felício com seu guarda-chuva,
que lhe ficava como luva.
O Sanches com a teleobjectiva.
Enfim, tudo "malta" viva!
Nestes derradeiros meses,
também conheci o Meneses,
senhor do seu papel,
parceiro do Miguel.
Ih, que fartas cabeleiras,
a dele e a do Figueiras.
Alguns, que mal atino,
como o Zé António, o Bernardino
e o Cecílio também
que eu não conheci bem,
pois, no meio de tantos,
ainda me apareceu o Cândido dos Santos.
Um trio havia ainda,
jogava, que coisa linda!
Um deles é cá da gente,
é Sequeira, mas é Valente.
Caladinho, mal sorrindo,
aparecia, às vezes, o Armindo.
E embora, dantes, rei da farra,
agora estudava a sério, o Pissarra!
Para em beleza terminar,
o Albuquerque vos devo apresentar
e dizer no fim desta poesia corrida,
" Eh pá, não me estraguem a vida"!

(continua)

domingo, 24 de julho de 2011

E, já passaram 40 anos ! ( 1 ) (Os últimos que aturámos)

Parece que foi ontem...
E, já passaram 40 anos!
Por isso, não podia deixar de vir aqui lembrar o fim (oficial) da minha vida académica, pois que, extra, ainda teve mais 2 anos de Pedagógicas, no fim das quais resolvi dar por terminada a minha "odisseia" de, desde os 15 anos, trabalhar de dia e estudar à noite ou vice-versa. A vida continuava e trazia outras necessidades.
Venho pois relembrar os últimos professores que "aturámos", ou que nos aturaram. Com os versos que lhes dediquei, no "Livro de Curso", relembro todos os outros que anteriormente nos fizeram, uns melhor, outros pior, chegar até ali!
Aqui fica o meu agradecimento!




OS ÚLTIMOS QUE NÓS ATURÁMOS

Duarte Turras (Instalações Eléctricas/Prática)

Aulas, até Agosto?
Sim! E porque não?
Depois do Posto,
ainda há a Baixa Tensão!

Chagas Gomes (Instalações Eléctricas/Teórica)

Sei que se vão rir,
mas, a mim causa-me dor,
nas frequências ouvir:
-"Os senhores não falem, por favor!"

Rufino Martins (Máquinas Eléctricas/Teórica)

Porém, é "notoso curiar",
( eu li num jornal alemão )
que se está a preparar,
pr'aí uma grande invenção!

Maçanita (Correntes Fracas/Teórica)

Agora, para acabar
com as ideologias da gente,
andamos a levar
com "cheirinhos" de corrente!

Santos Dias (Máquinas II/Teórica)

As gotas de combustível,
lançadas qual foguetões,
a uma velocidade incrível,
alimentam as combustões!

Veiga Marques (Máquinas II/Prática)

Não dou um momento de trégua,
se o motor não me empana.
-"Façam o problema à régua.
Ou, é melhor ficar para a semana?"

Brilhante (Organização Industrial)

Meus senhores, muita atenção!
Ao comprarmos um tear,
para a devida amortização,
qual a taxa a considerar?

Beatriz Monteiro (Máquinas Eléctricas/Prática)

Já sei o que é!
É isso mesmo o que se passa.
Vocês nem cá põem o pé,
os outros assistem em massa!


(continua)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Da origem e nome de Salvaterra.(“Recanto da pátria que até no nome é bonito”)



Depois da campina de Idanha,
do Extremo se chama a terra,
altiva, mirando Espanha,
conhecem-na por Salvaterra!

Salvaterra, que linda terra és!
Sem ver, ninguém se acredita.
Com o Erges, correndo aos pés,
até nesse teu nome és bonita!


Na origem deste topónimo, estará o facto de assinalar um ponto estratégico de defesa que permitiria aos povos, quando atacados, procurarem nele um refúgio seguro. Era uma “terra de acolhimento” ou de “pôr a salvo”, daí o nome de Salvaterra. Terá razão de ser, se se pensar que os mouros invadiram a Península Ibérica pelo sul, empurrando os cristãos para norte e Salvaterra, a norte da linha do Tejo e a quem os mouros chamavam de Sariuta, era por eles considerado um reduto difícil de conquistar.
“Recanto da pátria, que até no nome é bonito”, nas palavras de Miguel Torga, quando se fala de Salvaterra, o mais comum, em Portugal, é as pessoas pensarem em Salvaterra de Magos. Porém, além desta, há também Salvaterra, na Galiza, que se chamou ainda Salvaterra do Minho ou Salvaterra de Portugal. Isto provoca alguma confusão porque, na documentação antiga, todas são, a grande maioria das vezes, referidas apenas como Salvaterra. Fica, pois, ao leitor, o cuidado de descobrir a qual se refere. Tal facto originou enganos até nos historiadores de várias épocas. Portanto, é um topónimo que, facilmente, nos leva a concluir que identifica lugares destinados à defesa das fronteiras dos vários territórios. Por exemplo, em Espanha, onde pelo menos, existiam ao tempo, Salvatierra de Barros, a sul de Badajoz; Salvatierra de Calatrava, perto de Ciudad Rodrigo e entregue à Ordem de Calatrava; Salvatierra de Santiago, perto de Cáceres e entregue à Ordem de Santiago; Salvaléon, também é um nome bastante elucidativo. Estas quatro defendiam o reino de Leão dos ataques dos almóadas. Salvatierra de Alava, na fronteira de Castela com Navarra; Salvatierra de Esca, a norte de Saragoça, defendia a fronteira cristã já na época de Ramiro II. A já referida Salvatierra da Galiza, ou de Pontevedra, na margem direita do Rio Minho, defendia a fronteira entre Portugal e Espanha. Também, em Itália e França (Sauveterre), este topónimo aparece referenciado. O certo é que em 1560, durante o reinado de D. Sebastião, no mapa de Portugal, de Fernando Álvaro Secco, reconhecido como sendo o mais antigo, das poucas terras nele referenciadas, lá aparece escrito, apenas e só Salvaterra, embora já desde 1310 tivesse passado a chamar-se Salvaterra da Beira e foi em 1578 que, fazendo jus à sua posição geográfica e a mostrar quanto estava afastada dos desígnios do poder central, passaria a ser conhecida por Salvaterra do Extremo. Ao longo dos tempos, com a dificuldade de acessos, foi ficando isolada do resto do país e tornada “terra do volta atrás”. Do Extremo foi ficando, cada vez mais, apesar de, em 1910, estar previsto e já adjudicado o ramal de caminho de ferro (qual TGV daquela época) que lhe iria dar notoriedade. A República chegou e o ramal foi mais um sonho que se esfumou. E aquela que foi “terra de pôr a salvo” e de acolhimento de tantos, foi deixando sair os seus filhos por não ter condições para os sustentar. Estes, no entanto e apesar do verso “Salvaterra me desterra”, não a esquecem e sempre que podem recolhem a ela para a acarinhar e repousar no seu regaço, por alguns breves momentos ou esperando nela o fim dos seus dias!
E, é esta a minha terra!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Eu e ... a "Rota do Contrabando" ( conclusão )

A minha "aprendizagem de contrabandista" nesta "rota", resume-se a dois episódios, que passo a relatar.

Corria o Verão de 1954, estava de férias escolares, numa data perto da Feira de San Bartolomé, a Feira Espanhola como é conhecida, época em que a fronteira era normalmente aberta, fui à Zarza com a minha avó e uma prima.
Manhã cedo, ainda mal abria o sol, para chegar à Zarza antes das 9 horas, à abertura das lojas, aí vamos nós. Penso que fomos pela fonte da Ribeira, que a ribeira ia baixa e lá nos metemos por aqueles carreiros fora. Eu, “sangue na guelra”, a correr e a saltar, muito contente, resolvia mexer em tudo que achava de “interesse”. E, foi assim que me apareceu um calhau mesmo a pedir para eu mostrar as minhas forças. Mãos à obra e o calhau é levantado, mas logo deixado cair. Um “bonito” “bitcho alacrário” estava lá debaixo. Deve-me ter valido que o bicho ainda estava ensonado e não se sentiu muito ofendido, caso contrário já teria muito que contar. Passado este episódio, o João já foi sossegadinho até à povoação. Valeu o susto!
Comemos alguma coisa na loja do Juan onde vi que a casa, além de ter um poço na cozinha, também o corredor dava passagem para os animais.
Fomos ao talho, comprar talvez um bifinho de vaca para o rapaz, porque em Salvaterra não era fácil encontrar carne de vaca. Depois a minha prima ofereceu-me um “letche i lao” (era assim a pronúncia), que é “leche gelao” ou seja, ou que pretendia ser, um “gelado", ou “sorvete”. Coisa intragável, nem o barquilho se aproveitava e o gelado era mais, “água gelada”. Deitei fora!
Neste tempo, contrabando normal eram os frascos de perfume, “Tabu” ou “Flores del campo”.
A mim, bastou-me comprar um canivete, vulgo “navalha”, e umas “cartchanolas”. E, foi tudo.
Lá gastámos as pesetas, os “duros” (5 pesetas), as “perras gordas”(10 cêntimos) e as “perras tchicas”(5 cêntimos).
Houve que voltar para casa, agora com o sol pelas costas e, com o aproximar do meio-dia, já abrasador. Passámos por um campo de algodão, para mim uma surpresa, em direcção ao Vale de Idanha, onde, surpresa das surpresas, nos esperava a guarda fiscal, já acompanhada de outros viajantes. Afinal a fronteira não estaria tão aberta assim, ou os guardas desconfiariam de algo. E ali ficámos, no prado verde, junto à ribeira, pergunta para cá, resposta para lá. Não trazíamos nada de especial. Então o guarda fiscal resolveu “engraçar” comigo. E porquê? Eu vestia o que hoje se chama uma “jardineira” e naquele tempo não era mais que um fato-macaco com peitilho. Pois, não é que o homem achava que aquilo tinha sido comprado na Zarza? Não sei se ficou muito convencido mas lá nos deixou passar. Agora, havia que trepar encosta acima, o calor já apertava e só ansiava por chegar a casa, na Quélhinha, e comer um “gaspatchinho” feito na “cunca”. Foi a minha primeira experiência contrabandística. Um canivete, de Albacete, e umas “cartchanolas”. E, olé!


A segunda experiência, bastante mais tarde, tinha a minha filha mais velha pouco mais de 1 ano, em Setembro, na sequência duma viagem a Salvaterra para mostrar à família a minha mulher, o meu rebento e, porque não, o meu “cotche volante”, um “Fiat 127”, que o dinheiro não dava para mais, na sua primeira grande viagem. Aconteceu que necessitava de leite para a minha filha e os leiteiros em Salvaterra, pasme-se, tinham entrado em greve. Coisa nunca vista!
Problema colocado, solução à vista! Vamos à Zarza!
Com o meu pai e uma prima minha, manhã cedo, era da praxe por causa do calor, saímos do Castelo e encosta abaixo, julgo ter-mos passado no “Moinho do Seco”. Chegados à Zarza, comprámos uma garrafa de leite e como “brinde” resolvi comprar uma pequena boneca, não daquelas espanholas, de louça, que faziam furor antigamente. Era apenas uma simples boneca para entreter a miúda. Teremos feito mais alguns avios que não recordo e iniciámos a volta. Como sempre, o sol era abrasador e a subida, tentando passar longe da “caseta”, sem grande motivo para isso, foi íngreme e cansativa.
Chegados a casa, descansámos e tristeza imensa, a minha filha nem para a boneca olhou, queria era uma caixinha, com alguns feijões lá dentro, para sacudir e ouvir o barulho. Mas, isto foi só o início. No dia seguinte retornámos a Lisboa e quando, já em Ponte de Sor, parámos para dar o leite à criança, que era feito dele? Tinha ficado em Salvaterra. Foi, mais uma experiência contrabandística, falhada!

Histórias de contrabando são imensas mas, como já escrevi, isto era pequeno contrabando. No outro, as estórias nunca são contadas de modo a que todos percebam. Têm que ser lidas nas entrelinhas!

(Imagens retiradas da internet)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Eu e ... a "Rota do Contrabando" ( 1 )

Depois de ler o relato da minha amiga Cristina do blogue http://brisadoaltodaserra. blogspot.com , resolvi escrever algo sobre o “contrabando” e a agora tão falada “rota do contrabando”, tornada atracção turística.
O facto é que o contrabando é uma prática quase tão velha como o mundo. Desde que se formaram os estados, houve que criar impostos ou taxas, como lhe queiram chamar e sempre houve quem quisesse fugir aos mesmos. Uns sabiam como, outros julgavam saber e alguns outros nunca o souberam. Assim sendo, no caso da raia portuguesa, o contrabando, na grande maioria dos casos era um caso de subsistência. Não dava para enriquecer, pelo menos para aqueles que davam o corpo e, algumas vezes a vida. Se ricos havia, eram os mandantes, mas desses a história raramente fala e, quando fala, não diz a verdade toda.
Não poucas vezes também a própria autoridade (guarda fiscal) agia, não digo em conluio mas com alguma complacência, permitindo que os mais necessitados contrabandeassem sem serem importunados. No fundo, os guardas eram também povo e muitos deles com afinidades várias.
Porém, isso não impedia que a necessidade e a visão de dinheiro que parecia fácil, obrigasse a que muitas vezes alguém pusesse a vida em perigo.
Eu próprio, nasci numa noite em que meu pai, convidado pelo ti António Chavelhão, tinha ido passar uma “carga”, talvez de café. Pela manhã, ao chegar a casa, ele que tinha passado a “carga”, tinha mais um “encargo”. Mas, como sempre, lá foi porta fora levar o rebanho a pastar que, o Alexandre Romão não podia esperar.
Das peripécias de muitas dessas passagens de contrabando, muita gente fala hoje num misto de nostalgia e de anedota. Ora o caso é que algumas cenas, caricatas, só o são depois de terem passado. Quanto susto elas originaram!
A minha avó, viúva e com quatro crianças, passava sardinhas, depois de lavadinhas e postas em sal, já com alguns dias. Em tempos de guerra, em Espanha eram um pitéu!
Faziam-se saias, rodadas e com muitos bolsos interiores, para levar ovos. Se acontecia algum escorregão no caminho, é que era bonito…
Mas, isto era o contrabando das mulheres, normalmente feito durante o dia. Sabiam quem estava de guarda, muitas das vezes, e afoitavam-se. Entre outras coisas, lá vinham peças de fazenda que enrolavam no corpo, vestiam casacos de inverno, em pleno verão, levavam umas alpargatas velhas e traziam umas novas, “Ceregumil” era um fortificante que veio até aos nossos dias e pão era também tolerado.
Os homens, contrabandeavam de noite, sós ou em grupo. E será bom de imaginar, noite escura, mesmo que de luar, por caminhos, atalhos, ou por meio do mato, saber onde pôr os pés sem ser notado, coração a bater, principalmente se pressentiam algum ruído que podia ser até de animal. E, se alguém supunha ser a guarda, o sussurro: “Eh, rapazes, fugir que vem aí a guarda!” provocava a debandada e era cada um por si, tentando esconder a carga para a ir procurar no dia seguinte ou simplesmente largá-la e maldizer a hora em que se meteu naqueles trabalhos. Se a operação, até aqui, era bem sucedida, ainda podia haver o caso do cliente, do lado espanhol, receber o produto e não retribuir o pagamento e, se o Erges corria alto, lá se ia o lucro “por água abaixo”. Alguns, mais afoitos, entravam em Espanha e sujeitavam-se à lei dos “carabineros”, sendo presos ou mesmo não escapando com vida. Isto para não dizer que também a ribeira, por vezes, era madrasta e algum lá ficava. O Erges que, nas suas águas revoltas, entre “cantchais”, levou com ele, mãos crispadas procurando agarrar-se à vida e lançando gritos de aflição, as três infortunadas filhas da Dona, uma espanhola da Zarza.
Os pontos de passagem mais comuns eram o “Vale (ou Vau) de Idanha”, os “Plomes”, o “Salto da Cabra” e o “Moinho do Seco”. Onde a passagem era mais fácil, era maior a exposição à vigilância da fronteira, onde havia menos exposição era mais difícil e perigosa, como é natural.

(continua)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O dia começa no autocarro ! ( conclusão )

Mas, que é isto? Então o autocarro hoje mudou de itinerário? Ia fazer a pergunta, mas, olhando para os meus companheiros de viagem vejo que ou já mudou há alguns dias ou leram algum aviso, pois eles nem pestanejaram!
- Olha p’ra eles! Olha! Dizia uma voz no piso inferior e eu olhei mas não vi nada.
- Alguns já cá vieram pôr o carro ontem!
Continuo a olhar para a esquerda, para a direita e nada.
Ah, agora, também já vejo. É lá à frente. Dir-se-ia que Lisboa é a cidade do mundo com mais “táxis” (esta nossa mania das grandezas) e que por isso estavam ali aqueles todos, à espera de freguês.
Mas, não! Longas filas de “táxis” dispunham-se dum e doutro lado da rua, havendo ainda alguns nas ruas transversais. O problema é outro e maior. Estão ali perdendo umas horas ou talvez dias, quem sabe, para que possam ganhar mais uns cobres assim que dali sairem. Estão na “bicha” para aferição dos taxímetros. Entretanto, àquela hora, alguém está algures na cidade perguntando onde se meteram os “táxis”.
Levo a mão ao bolso e encontro ainda o porta-moedas que parece encolher-se, de tanto “apertão” levar. Qualquer dia ou passamos a usar uma malinha de mão ou pagamos tudo com cheque.
Entretanto, o autocarro retoma o itinerário antigo e pára mais à frente.
Entra aquele casal jovem, ainda bastante fresco e um seu amigo que faz habitualmente o papel de “bobo” do casal. Tenho a impressão de que ele sabe disso, mas a Vida tornou-o assim e ele não se importa. Vive feliz, assim parece.
Este casal, moderno, contrasta com o casal que vai lá mais atrás, já um pouco idoso. O marido, do género que já não se usa, não porque não devesse usar-se mas porque está ultrapassado pela descontracção da vida moderna, mantém-se sempre atento e venerador desde que entra até a esposa deixar de se ver, pois que sai algumas paragens antes dele. E a senhora não é das mais fáceis de satisfazer, pois que, regra geral, nunca se sente bem no banco em que inicialmente se sentou, sendo rara a viagem em que não muda de lugar duas a três vezes. O marido acompanha-a nessas mudanças como se se tratasse dum arrumador de cinema, sem protestos, zelando unicamente pela sua dama.
A viagem aproxima-se agora do termo, mas, falta ainda a fase crucial do Cais do Sodré. Verde! Vermelho! Traço vertical! Traço horizontal Outra vez verde! Vermelho! Traço vertical! É agora. O autocarro arranca! Tem no entanto que afrouxar pois o vermelho, mais à frente, ainda lá está. O verde está quase a aparecer. Já está! Arranca agora e parece que já não quer parar. O fim aproxima-se. Olho o rio, o Sol ( grande bola vermelha no horizonte ) desponta deixando perceber as silhuetas dos navios ancorados lá longe. Os “cacilheiros” mantêem a actividade febril das horas de ponta. Tenho que ver se ainda apanho o seguinte.
Mais uma curva, desvia-se um pouco para a esquerda, levanto-me e desço a escada. Alguém tocou já o sinal de paragem. Abrem-se as portas automáticas, saio e aspiro o ar fresco da manhã, misturando-me com a multidão que saiu do último “cacilheiro” comprimindo-se ao atravessar a rua e que de seguida, nervosamente, se aglomera na paragem do autocarro.
Não há dúvida, o dia já começou!

Lisboa, 19 / 3 / 1973


(Imagens retiradas da net: biclaranja.blogs.sapo. pt e freewebs.com)