quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sorrisos de ... Outono !

Deste Outono, quase Verão, deixo estes sorrisos de Primavera!

No Outono, a folha caída
é, por vezes, sem sentido!
Como o Outono da vida
ele pode ser bem florido!

Que não façam maus juízos
pois o Outono, só para mim,
deixou-me alguns sorrisos,
espalhados no meu jardim!

E, como ser vosso amigo
será uma minha qualidade,
não os guardarei comigo.
Aqui ficam. Com amizade!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

1 de Outubro de ... 1957 ! Mais um dia inesquecível !

Dia 1 de Outubro de 1957, uma terça-feira, cerca das 08.00h, ao portão do Estaleiro Naval da CUF, juntam-se umas dezenas de adolescentes. Após a sua inscrição para admissão, fizeram exames, médico e psicotécnico e agora ali estavam para iniciar nova vida, como aprendizes. Iam ser distribuídos pelos vários sectores do Estaleiro, a saber: Electricidade, Carpintaria (moldes, marcenaria), Mecânica e Caldeiraria (serralharia civil, soldadores eléctrico).Entre eles, um miúdo de 16 anos, destinava-se à Oficina de Mecânica. Tinha assinado um contrato de trabalho com o Estaleiro Naval da CUF.


Minimamente já conhecia o estaleiro pois, até então, tinha trabalhado nas oficinas da AGPL, ali mesmo ao lado.
Pois bem, com os outros, agora novos colegas, para trocar de roupa, um fato-macaco lavadinho, lá se dirigiu ao vestiário dos aprendizes, um vestiário provisório, anexo ao Armazém das Tintas, bem ao fundo do estaleiro, após a carreira de construção e junto ao portão do cais da Princesa, quase no largo de Santos. Para começar seria uma grande estopada diária, a deslocação ao vestiário e vice-versa. Seguiu então para a Oficina de Mecânica onde, numa zona da mesma, lhe estava reservada uma bancada de trabalho. Era o sector dos aprendizes onde teria um monitor. Iria ser o seu local de trabalho durante cerca de 1 ano (talvez 10 meses).
Foi-lhe atribuído um número de operário, foram-lhe distribuídas chapas para levantamento de ferramenta, além daquela que era a sua dotação e ficou a saber que teria, diariamente, 2 horas para estudar e o seu turno de estudo seria entre as 08.00h e as 10.00h, às 12.00h tinha o intervalo para almoço e o período da tarde seria das 13.00h às 17.00h, durante 6 dias por semana. Descanso só ao domingo e férias (uma semana), só a partir do dia 1 de Outubro do ano seguinte.Tudo esclarecido, havia que começar a trabalhar e a familiarizar-se não só com os novos colegas, como também com o mundo que era o estaleiro!O estaleiro, cujo portão de entrada se situava junto da passagem de nível da Rocha, era o primeiro ponto de escoamento da multidão operária que, todos os dias, entre as 7 e as 8 horas da manhã, ali desembocava. Era o primeiro ponto e talvez aquele onde a afluência era maior. Mais adiante havia outros pontos onde se iam escoando, casos da 10ª Repartição da AGPL, logo ali ao lado, das oficinas da Companhia Colonial de Navegação, da Sociedade Geral e da Companhia dos Carregadores Açoreanos, todas do lado de lá da eclusa, depois da ponte giratória.Pois bem, entrado o portão do estaleiro, do lado esquerdo encontrava-se a portaria, seguida dum corredor sob um telheiro, por onde se fazia a saída do pessoal. Entre estas instalações e a rua da Cintura ficava o edifício da Administração (Contabilidade, Telefonista, Sala de Desenho e Gabinetes da Direcção do Estaleiro) com um pequeno jardim defronte da entrada interior.No lado direito e logo à entrada, estava um pequeno casinhoto no qual um dos guardas, fazia serviço de barbeiro e pelo que seria dado ver, tinha clientela. Depois via-se um edifício, ainda em fase de construção e que diziam ser o futuro refeitório mas que, antes disso, serviu de Sala de Estudo para os aprendizes e também de Sala de Desenho.Continuando pela rua principal, do lado esquerdo, via-se um edifício de piso térreo que começava com um barracão, em madeira, para estacionamento das viaturas da Direcção, encostado ao edifício de alvenaria onde se encontravam, por ordem, o Posto Médico, o Serviço de Pessoal (atendimento do pessoal) e o Serviço de Ponto, cujas portas de entrada ficavam noutra rua, paralela a esta e a partir do tal jardim, defronte da Direcção, começava um edifício corrido, com altura suficiente para instalar dois pisos onde, para começar, se encontravam num 2º piso com acesso exterior, os Orçamentos, seguiam-se a Electricidade, a Carpintaria (Marcenaria em baixo e Moldes no 2º piso), uma parede com relógios de ponto, o portão da Mecânica para acesso de peças de maiores dimensões, num recanto outro portão e depois da parede da oficina o outro portão da Mecânica, seguido de nova parede com relógios de ponto (para a Mecânica, Caldeiraria e talvez outros). Mais ou menos desde a Carpintaria, esta passava a ser a rua principal que iria até às carreiras.Entretanto, à esquina do Serviço de Ponto enquanto a rua principal tinha flectido para a esquerda, para a direita ficava o arruamento de acesso às docas secas nº 1 e nº 2. Entre eles situava-se mais um edifício onde se encontravam instalados, a Produtividade (numa torre de 3 pisos a que chamávamos o “Pombal da Ciência”), e em baixo o que se chamaria de Mecânica “fina” (Diesel, Equilibragem e os muito procurados trabalhos de Pantógrafo), ao lado alguns degraus davam acesso ao Refeitório, junto à parede deste algumas torneiras para matar a sede do pessoal e de seguida os sanitários e a Fundição. Ainda antes de tudo isto, no topo, defronte do Serviço de Ponto, encontrava-se um sector dos Lubrificantes.Seguia-se outro edifício, entre a doca nº 2 e a rua principal. No topo, estavam os gabinetes dos chefes de Navio e o portão de acesso ao Armazém Geral. Na rua principal estava a porta de acesso do pessoal de escritório do Armazém e, um pouco mais à frente, o balcão de atendimento (mesmo defronte do último portão da Mecânica), seguiam-se a Sala do Risco (Traçagem), uma Ferramentaria (dos aparelhos de elevação) e uns sanitários. Junto à Doca nº 2, ficavam a Conservação, Transportes, o Serviço de Docas, a Preparação de Trabalhos da Caldeiraria e a outra porta da Ferramentaria dos aparelhos de elevação.Após a Mecânica, na parede dos relógios de ponto havia ainda uma escada de acesso aos escritórios da Mecânica e em seguida dava-se a entrada na nave onde estavam os Tubos, a Serralharia Civil e a Caldeiraria propriamente dita, com a Ferraria lá bem ao fundo. No largo fronteiro ao Armazém Geral, ao ar livre, havia um engenhoso artefacto (talvez já o “bate-bate”), para prover ao encurvamento dos tubos que, ao alto eram cheios com areia, batidos e só depois encurvados.A partir daqui e continuando pela rua principal, tinha à esquerda a parede da Caldeiraria, a Ferramentaria Pneumática, portas de acesso aos gabinetes da oficina e uns sanitários. Do lado direito havia a Central de Compressores, e logo a seguir a Casa Amarela, sala de estudo no piso superior e Armazém das Novas Construções, em baixo.Após um parque de ferro, à direita, chegava-se às Carreiras, passava-se por baixo, num túnel e à esquerda lá estava, num edifício recente, o vestiário dos aprendizes, paredes meias com o Armazém das Tintas. Defronte, o Cais da Princesa e um parque de chapas.Entre a doca nº 2 e as Carreiras, haviam as docas nº 3, 4 e 5.O espaço físico do estaleiro estava praticamente memorizado! Havia que continuar, agora mais aprofundadamente, a identificação com a Mecânica!A oficina de Mecânica tinha uma sala de desenho e gabinetes dos engenheiros e ATE (Agentes técnicos de engenharia) num piso elevado (a que hoje talvez se possa chamar de “mezzanine”), tendo por baixo a zona de Enchimento de Bronzes, a Preparação e a Distribuição de Trabalhos.Seguiam-se, junto à parede do exterior, os tornos mecânicos, na parte central, dum lado e doutro da zona de circulação ficavam ainda tornos, frezadoras, uma plaina, dois limadores, um escatelador vertical e duas serras de fita.Junto à parede interior, uma bancada corrida estava apetrechada de tornos de bancada para o serviço normal dos operários da oficina e para alguns que normalmente trabalhavam a bordo. No prolongamento desta bancada e junto ao portão do canto, estava uma área destinada aos soldadores destacados para a oficina da Mecânica. Ao fundo, da zona central, uma mandriladora, um torno vertical e um plano de traçagem e a seguir a estes, o sector destinado aos aprendizes e a ferramentaria.


Após a identificação do espaço físico, havia que, aos poucos, ir identificando o pessoal e, assim começou o que eu poderei chamar "O primeiro dia do resto da minha vida" porque, apesar de já trabalhar há 2 anos, este foi o primeiro emprego cuja escolha foi de minha inteira responsabilidade e que provocaria uma viragem na minha vida!

(Problemas de computador, ainda não totalmente debelados, impedem-me de colocar este "post" no próprio dia, 1 de Outubro. Do facto, as minhas desculpas.)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

18 de Setembro de ... 1949 . Um dia inesquecível !...

(Devido aos problemas do meu computador e à impossibilidade de colocar este "post" no próprio dia 18, embora não tenha o impacto mediático do passado dia 11, aproveitei uma "boleia" amiga e aqui o estou a colocar já hoje).

Este dia deve ter sido previsto uns 8 anos antes. Mais propriamente desde o ano em que nasci!
Deu-se o caso de que no ano em que nasci:
O Sporting ganhou o Campeonato de Lisboa de Futebol.
O Sporting, ganhou o Campeonato Nacional de Futebol.
O Peyroteo marcou 29 golos.
O Sporting ganhou a Taça de Portugal, em Futebol.
O Sporting ganhou o Campeonato Nacional de Atletismo, em pista.
O Sporting ganhou o Campeonato Regional de Andebol, de Onze.
Francisco Inácio e o Sporting ganharam a Volta a Portugal em bicicleta.
Francisco Inácio ganhou a corrida Porto/Lisboa.
João Lourenço foi, pela primeira vez, campeão nacional de velocidade em pista, em amadores. Iria ser campeão, consecutivamente, até 1949!

Era tudo verde! Até os Óscares foram para o filme “O Vale Era Verde”, do John Ford (mais um João, este americano)!

Com todos estes acontecimentos, eu só podia ter “encarnado” (salvo seja) num fervoroso mini adepto “verde”. E foi assim que os acasos da minha vida trouxeram até mim (sim, não fui eu procurá-los) dois dos maiores futebolistas daquela época e de sempre, o João Azevedo, um dos nossos melhores guarda-redes, senão o melhor de sempre e o Peyroteo, um dos nossos melhores avançados.
Hoje, seria como estar com o Figo ou o Cristiano Ronaldo e em minha casa, vejam lá. Tudo isto por interpostas pessoas, essas sim fervorosas adeptas e conhecedoras também da minha “devoção”. Com o primeiro, tinha eu uns 6 anos, mantive uma conversa com ele, acompanhado dum exemplar da revista “Stadium”, procurando saber do seu estado de saúde pois tinha saído duma grave lesão. Com o segundo, talvez nos meus 7 anos, conheci a que iria ser sua esposa e ao seu colo fui debitando os nomes dos jogadores da equipa dos “5 violinos”, tendo o cuidado de, quando cheguei ao nº 9, ter “dobrado” a língua e dito, o sr. Peyroteo. Com 4 ou 5 anos, ainda sem sequer saber ler, eu conhecia os “bonecos da bola”, do Sporting, de tal modo que bastava mostrarem-me os jogadores da cintura para baixo e não falhava um!
Posto isto, valeram-me uns outros fervorosos adeptos ao convidarem-me para me deslocar a Lisboa (eu morava no Algueirão), para no Estádio Nacional assistir a um jogo de futebol. Imaginem qual! Nem mais nem menos, um Sporting-Benfica! Era o máximo! Não cabia em mim de contente, seria o meu primeiro jogo, ao vivo e a sério. No Algueirão já tinha assistido a alguns, com o Pêro Pinheiro, o Montelavar, o Sabugo e outros mas isso era num campo pelado e sem a emoção dos grandes jogos, se bem que eu vibrasse sempre com eles pois até podia ser um jogo de solteiros e casados que eu lá estava!
Chegado a esse dia, após o almoço, sem pressas porque o jogo principal ainda era antecedido dum jogo das reservas dos mesmos clubes e, por conseguinte, só necessitávamos de estar no Estádio lá para as 17 horas, os meus vizinhos puseram o carro a trabalhar, depois dumas boas voltas da manivela, que antigamente era assim e estávamos prontos para a viagem. Saímos, pela estrada poeirenta, direitos ao Algueirão de Cima, onde entrámos na estrada de Lisboa-Sintra. Passámos à Baratã, à Tala, Meleças, Belas e tudo eu ia observando uma vez que para Lisboa só conhecia a linha do comboio.
Cerca das 4 e meia chegámos ao Estádio, ainda sem muita gente e lá fomos para a bancada do topo norte, atrás duma das balizas. Aquilo sim, era um campo de futebol, à séria! Decorria o jogo de reservas e eu só tinha olhos para aquelas camisolas às riscas verdes e brancas. E lá estavam, o Tormenta, o Silvestre, o Ismael e outros que não eram do meu conhecimento. Terminado o jogo de reservas, penso que empatado 0-0 mas isso era o que menos importava, ficámos a aguardar pelo prato forte. Entretanto, ainda com o jogo de reservas a decorrer, diziam alguns: “Olha eles, já ali estão!” e eu lembro-me de ver, junto ao muro em volta do campo, entre outros, o Moreira e o Rogério. Estavam a chegar e daí a pouco todos entrariam, para gáudio da multidão!
E, quando o jogo começou, o Sporting alinhou com o Azevedo, Passos, Juvenal, Canário, Manuel Marques e Veríssimo e ficámos a saber que os “5 violinos” não estariam todos. Jogavam, Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Albano e faltava o Travaços, em virtude duma das suas já costumadas lesões. Quem o ia substituir seria o “Rola”, moço esguio, vindo do “Estarreja” e que se esperava fosse um bom substituto para o Peyroteo, que estava de saída e que, ficámos depois a saber, esse seria o seu último jogo oficial.
A primeira parte decorreu sem muitas preocupações, o Azevedo estava ali mesmo naquela baliza, perto de mim e o Benfica não atacava muito. Da outra baliza, a do Benfica eu pouco sabia o que lá se passava. Ficava lá ao fundo e bastava-me ver alguma coisa e ouvir o bruaá da multidão. Veio o intervalo e fomos até ao bar, desentorpecer as pernas e aliviar as vias urinárias. Aqui já se podia ver que o pessoal era bastante pois tornava-se difícil atravessar no meio do aglomerado de pessoas, todas a quererem atingir os mesmos objectivos.
Começou a 2ª parte e, agora, era a baliza do Benfica que estava ao pé de mim. Agora é que ia ser! Mas apesar das investidas do ataque do Sporting e do Peyroteo, em particular, às redes do Benfica, defendidas pelo Rogério Contreiras, o tempo ia passando e aparte umas cargas mais duras do Rogério sobre o Jesus Correia, que o faziam estatelar-se na pista de cinza (eles que até eram amigos), nada havia a assinalar. Estava a sentir-me defraudado mas, eis senão quando, a um mísero minuto do fim, só tive tempo de ver, quase no meio campo, sobre o lado esquerdo um molho de jogadores e, de lá de dentro, sair uma bola que parecia um foguete em direcção à baliza “encarnada”. O Contreiras mete as mãos à bola mas, ou pela força que ela trazia, ou por azelhice, a bola entrou na baliza. Foi gooooolo!!! Grande pontapé, do Veríssimo!
E enquanto eu ria e pulava de contente, o azarado do Contreiras, de boné na cabeça, só fazia era esfregar os olhos e queixar-se que teria sido por causa do sol. E, se calhar, até foi, mas ainda bem!
Quase de seguida acabou o jogo e eu todo inchado. Tinha visto o Azevedo e o Peyroteo, o Sporting tinha ganho e com essa vitória tinha assegurado a conquista da “Taça Preparação”! Tudo isto, num só dia!
O sol ia-se escondendo, saímos do Estádio, ainda parámos num café junto ao Colégio Militar e era já noite quando fizemos o retorno a casa. Eu, tinha ganho o dia e não o iria esquecer. De tal modo, que já tenho corrigido alguns afamados cronistas da nossa praça quando ignoram tal jogo. Claro que não posso deixar passar tal falha. Seria quase como dizerem-me que esse dia não tinha existido! Era o que faltava!
Hoje, ainda “verde”, mas mais “maduro”, lembro o tempo em que o desporto, principalmente o futebol, era outro, talvez um pouco ingénuo mas mais verdadeiro e em que eu, e a grande maioria, “corria a foguetes” porque a festa era, realmente, popular.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

FESTAS DE NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO, em COLARES

Em tempo de férias, venho aqui só para deixar o Programa das Festas de Nossa Senhora da Assunção, em Colares.
Todos, que desejarem estar presentes, serão bem vindos!
Há folhetos com a programação, a cores, mas eu só consegui arranjar este. As minhas desculpas mas, a Festa é a mesma...
Junto também, a todos os visitantes deste blogue, os meus votos de Boas Férias!!!




sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Ecos da Vida Rural ...

Muito se fala de agricultura mas muito poucos se lembrarão de como era a vida rural. E, é talvez por descargo de consciência que, hoje em dia, se levam as crianças a ver uma qualquer “quinta pedagógica”. As “quintas pedagógicas”, são como que a face romântica da agricultura. É quase como se fôssemos visitar o Jardim Zoológico, onde, tal como a vida rural, as espécies estão em vias de extinção. E, se bem que, no presente, tenham a sua utilidade, penso que a sua maior utilidade será no futuro, quando as novas gerações conseguirem interiorizar os ensinamentos que lhes forem sendo deixados. É um prazer ver as crianças fazendo descobertas e abrir os olhos de espanto tocando animais que qualquer criança do país rural conhece como a palma das mãos.
Sem verdadeiro conhecimento de causa, pouco poderei dizer, pois saí da minha terra com pouco mais de 3 anos. No entanto vou tentar. Oxalá não ande muito longe da verdade.
Dantes as famílias iam para os campos, seu local de trabalho. Não tinham horário fixo, de entrar às 8 da manhã e sair às 5 da tarde. Não tinham semana inglesa e o domingo nem sempre. Começavam o trabalho ao alvorecer do dia e só terminavam quando o sol se punha.
Deslocavam-se, com armas e bagagens, que é como quem diz, com o burro, o cão e não levavam o gato e o periquito porque em vez destes levavam galinhas. Todos tinham a sua utilidade. O burro, para o transporte dos seus pertences (normalmente, cada um fazia o percurso a pé, ao lado do animal que já levava carrego que bastasse), o cão para guarda e defesa e as galinhas para irem pondo uns ovitos. Eram galinhas que andavam à solta no campo e o maior problema era saber onde elas punham os ovos. Por vezes atavam-lhes uma linha a uma das patas para poderem seguir até ao seu poiso. Cumpre-me aqui lembrar a nossa “burrica” e o cão, o “Piloto”.
Os locais de trabalho, na ceifa, eram as “Nave Longas”, o “Coito”, a “Apartadura”, a “Batanada” e outros que decerto haveria mas de que não tenho de memória.

As famílias que iam para esses locais, construíam a sua própria casa, a “choça”, feita de colmo, onde faziam a sua vida enquanto durasse o período da ceifa. Ao seu local de habitação, chamavam, o ”fato”.
Tarefa dura, feita no Verão, sob a inclemência do sol, estava sujeita a todos os problemas da vida no campo. O homem ao lavrar e ao segar as searas, destruía o “habitat” natural de aves e répteis, tais como cobras, lagartos e lacraus e, por vezes, sofria o ataque ou, melhor dizendo a defesa destas.
As aves, os “milhanos”, atacavam os pintainhos e até as galinhas e os répteis, principalmente os “bitchos alacrários”, usavam as suas picadas para pôr em alvoroço e em sofrimento quem as sofria. Claro que a “bicharada” ao ser escorraçada do seu “habitat” natural, ia aparecendo pelos caminhos, mais junto à povoação e até mesmo na povoação. Porém, mais importante que todos esses problemas que a natureza lhes criava, eram as “maleitas” ou “sezões”, doença temida por todos e origem de muita mortalidade infantil após as ceifas.
A alimentação, frugal, eram o “gaspacho”, umas migas, feijão ou grão, azeite, só uns olhinhos dele que não se podia gastar muito, pão, queijo, chouriço e azeitonas, tudo por conta e medida! E, depois dum sono, que não devia tardar, de tal modo o corpo o pedia e que se esperava fosse reparador, o novo dia começava bem cedo!
Hoje, com os campos por cultivar, a vida animal refaz-se um pouco e retornou aos campos deixando mais livres os povoados ou, mais propriamente, os despovoados. As pessoas ouvem falar que a vida era difícil e as “quintas pedagógicas” só lhes podem dizer quão bonito é ver uma planta a crescer ou uma árvore a dar fruto, não lhes diz o quanto sofrimento esteve na sua origem!
Naquele tempo não havia Novas Tecnologias, nem Novas Oportunidades. Não havia nada novo, além dum Estado que diziam Novo. Não havia Serviço Meteorológico. As Oportunidades eram Únicas e eram os velhos que ensinavam, num conhecimento ancestral, olhando para o céu, a saber se ia fazer sol, chover ou ventar. A saber qual a melhor época para semear e para colher. Fazer matanças e preparar as carnes. Fazer queijo e pão. E, dizem, que não tinham tecnologia…
Quem, hoje, é capaz de fazer isso?

( imagens retiradas de portugal.ecovillage.org ; arquivo digital (cena de ceifa em Assequins) ; paradadegonta.blogs.sapo.pt ; oreinodosanimais.blogspot.com )

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

SAUDADES OU SÓ LEMBRANÇAS … DO ALGUEIRÃO ( II ) Conclusão

Depois, coube-me explorar a outra parte do meu Mundo, a parte de Baixo, Algueirão Novo!
A ligar as duas partes, a de Cima com a de Baixo, havia uma estrada (ainda hoje Estrada do Algueirão), poeirenta, que hoje, ruas com casas dum lado e doutro, é difícil a quem a não conheceu, saber onde passava. Como alternativa, havia um atalho (hoje o que, praticamente, é a rua dos Morés) pelo meio dos campos, onde, entre campos de cultivo, havia uma Fábrica da Telha.
A estrada, propriamente dita, começaria por alturas do que são, hoje, a Escola Primária e a Igreja, descia ligeiramente e depois de uma subida um pouco mais acentuada, curvava, onde hoje é a rua do Mercado, um pouco abaixo donde foi construído o reservatório de abastecimento de água (que ainda não havia, dado que a água que se utilizava era de poços ou fontes) para a esquerda e para baixo, descia de novo até encontrar a entrada inferior do atalho, numa zona baixa onde estava e ainda está uma mercearia e taberna que não recordo o nome (talvez, “A Competidora”) mas que era do “Pérlita”. Neste local, de passagem duma vala, houve certa vez uma grande inundação que impossibilitou a comunicação dos dois lados da povoação. Ainda pior, porque era por aqui o acesso de e para a estação dos caminhos de ferro!
Com o meu novo Mundo situado cá em Baixo, continuei a minha exploração. As casas aqui, eram mais novas e em maior número mas o movimento de pessoas nem por isso. Muitas das casas eram de veraneio (com o consequente abandono durante o resto do ano) e noutras, as pessoas não trabalhavam no Algueirão, saiam de manhã e retornavam já de noite. A proximidade da estação de caminhos de ferro, ajudava a isso.
É, então, que o centro do Mundo passa para o que se chamaria Rua M (ou seria N?) e hoje é a Rua de Santo Estêvão!
E, é daqui que eu parto para a descoberta do resto do Mundo. Não me alargava muito, pois normalmente só ia até à linha do comboio.

Para lá da linha, ia à drogaria, à farmácia, ao cinema “Chaby”, acabado de construir e uma ou duas vezes, a uma drogaria, o “Africano”, para comprar lixívia (que os tempos eram de crise e não a havia em qualquer lado), ali para os lados dos Casais de Mem Martins.
Pois bem, saindo da tal rua M (ou N), chegava à estrada e, para baixo lá encontrava, do lado esquerdo os “Correios”, depois, à direita o “Pérlita", mais à frente, à esquerda a “Cabeleireira”, numa vivenda, lá para dentro e, já quase junto à linha, do lado esquerdo uma taberna, a “Cova Funda”, e na esquina defronte, uma mercearia. Do lado direito, entre outros havia uma capelista e outra mercearia, e mais acima o talho do Alberto Conde, pai do cavaleiro tauromáquico Manuel Conde (*). Este, tinha casado com a filha do Crispim, do Algueirão de Cima; e dizia-se que a família Conde, seriam os mais ricos de Maçãs de D. Maria! Dinheiro atrai dinheiro!
Ainda junto à linha e no sentido de Sintra, começava a Avenida Capitão Américo dos Santos que, penso ligava à avenida, chamada da “Torrejana”, porque lá no fim ficava uma loja (mercearia) com esse nome. Penso que hoje, essa avenida é a avenida Val do Milho.
Atravessada a linha, do lado esquerdo, ia-se até à Ribeira de Fanares, onde muitas vezes fui com minha mãe, para lavar roupa. Hoje será mais uma ribeira enterrada, talvez sob a Av. dos Capitães de Abril.
Em frente, além da drogaria do “Poças”, da farmácia “Químia” e duma mercearia, a que eu achava muita graça por dizer que era um Armazém de Víveres, coisa estranha para mim, e que ficava defronte da que foi Av. Chaby Pinheiro (penso eu), havia então nessa tal avenida, que pouco mais era do que um descampado, o Cinema “Chaby”. Foi neste cinema que eu vi o “Fado”, "Não há rapazes maus", “Duelo ao Sol”, “A Loura Incendiária”, “Sangue Ardente”, “Tão perto do meu coração”, e “Tarzan e a Fonte Mágica”, o primeiro filme do Tarzan interpretado pelo Lex Barker.
Não foram muitos os filmes que vi mas eu devorava os cartazes que apareciam na montra do “Pérlita”.
E, do lado de lá da linha, em Mem Martins, para mim, era tudo.
Do lado de cá, defronte da minha rua havia o que hoje é a rua do Forno e que era um caminho, até ao atalho. O forno era um forno de cal, local onde era frequente haver acampamento cigano, o que me obrigava, ao passar por ali, no meu caminho para a escola, a fazer uma espécie de “sprint” relâmpago, de modo a ver-me livre de sensações e medos estranhos demais para um miúdo.
Em sentido inverso, a zona de vivendas ali à volta, incluía uma padaria e um terreno mesmo a pedir que se fizessem ali uns “joguinhos” de futebol, que eu aproveitava na companhia de alguns veraneantes. Depois havia um regato, seco no Verão, uma zona de mato, e chegava à “Torrejana”, zona de mais algumas vivendas que se iam distribuindo na avenida, até à linha do comboio. Pouco mais havia, naquele mato imenso que ficava ali defronte de Ouressa mas, mesmo assim, lá no meio, o Colégio D. Afonso V, isolado, parecia não se importar muito com isso. O certo é que anos mais tarde, mudou-se para os lados de Fanares.
Por aqui, nada mais havia. De referir que para lá do atalho, na direcção das Mercês, havia o “Pinhal da Formiga”, onde corria uma ribeira que julgo seria a Ribeira de Fanares e onde apanhava lírios nas suas margens. Hoje, são ruas e prédios!
Assisti, à construção do edifício da Estação de Caminho de Ferro, pois até ali, o Algueirão, era apenas um apeadeiro; à viagem inaugural das primeiras carruagens, suíças, viagem feita pelo senhor Presidente do Conselho, dr. Oliveira Salazar e à viagem da rainha D. Amélia, a Sintra.
E, dos 3 aos 9 anos, foi este o meu Mundo, conhecido a palmo e que hoje me recuso a reconhecer mas que não esqueço!
A freguesia mais populosa do país, parece nunca ter tido passado. E futuro, terá?

(A foto do cinema "Chaby", foi retirada do blogue www.algueirao-memmartins.blogspot.com e penso que seja dos anos 70 pois vê-se, nela, o que me parece ser um Fiat 127)

(*)Alertado por leitor atento e porventura mais conhecedor do que eu, aqui fico a correcção do que eu, por lapso de memória ou outro, escrevi no "post" original e que foi : "e mais acima o talho do Alfredo Conde, cavaleiro tauromáquico, pai do também cavaleiro Manuel Conde", o que está manifestamente errado pois que Alfredo Conde era o seu irmão e que eu, até agora, desconhecia que também tivesse sido cavaleiro tauromáquico. Vivendo e aprendendo!
Aqui fico também o meu agradecimento ao leitor Serafim Coito.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

SAUDADES OU SÓ LEMBRANÇAS … DO ALGUEIRÃO ( I )

Saudades do Algueirão, mas de quando o Algueirão era o Mundo, o meu! Não este de agora em que é um mundo inter-racial mas com falta de identidade ou à procura da mesma.

Um Algueirão Velho, ou de Cima, que quase se mantém na mesma, mas só quase. Lá está ainda a sede do clube, o “Recreios Desportivos do Algueirão”, “a sociedade” como lhe chamávamos, o freixo, talvez centenário e defronte, agora, um arremedo de jardim, onde fora o “campo da malha”. Faltam, a taberna do ti’Agostinho ostentando nas paredes pinturas alusivas aos caçadores que como é natural frequentavam a casa; a taberna do Manecas, tendo o balcão ao fundo e nas prateleiras, por cima, lá estavam as botijas (seriam de aguardente?)**, que depois de usadas eram utilizadas no inverno para, com água quente, aquecer as camas de cada um.A minha casa, com o freixo defronte, era o centro do Mundo!
Daí, eu partia, em frente, para o atalho que um dia seria o meu caminho para a Escola Primária e iria descobrir outros mundos. Para a esquerda, pela estrada de terra batida, passava defronte da “sociedade” e chegado ao cruzamento com a estrada Lisboa-Sintra (que só havia esta e hoje se chama Rua da Associação), já alcatroada, podia escolher que caminho podia seguir. E é deste cruzamento que vou reviver os vários itinerários. Assim, para a direita e ligeiramente a subir, no sentido de Lisboa, meia dúzia de vivendas, dum lado e outro da estrada, passava o campo de futebol, terreno pelado e, mais à frente, outra meia dúzia de casas, estas já antigas e de piso térreo. E era ali, onde a estrada continuava, descendo até à Baratã e uma outra, a das Mercês, do lado direito confluindo com esta, e lá estava o edifício, térreo, de 4 salas de aula. A Escola Primária do Algueirão, hoje transformada em “stand” de motorizadas!

Então, podia continuar mais um pouco na direcção da Baratã e, terrenos do lado esquerdo, encontrávamos do lado direito o “Pinhal do Escoto”, aprazível local de frescura, muito procurado pelos veraneantes, pela sua sombra e água fresca que brotava duma mina. Hoje, esse pinhal, que se estendia até à estrada das Mercês, parece ter sido todo arrasado, encontrando-se aí localizados um “hipermercado” e uma “bomba de gasolina”. Também a “Tapada das Mercês”, espaço enorme, onde se fazia a “Feira das Mercês”, se comiam as castanhas e se provava a “água-pé”, desapareceu e se transformou num grande projecto imobiliário.
Voltando ao cruzamento inicial, seguindo em frente, pela estrada da Barrosa, terrenos dum lado e outro, ao fundo uma quinta e, mais uns metros à frente, após uma ligeira subida, lá estávamos, bem no alto, junto ao “Pinoco”, marco geodésico que me habituei quase a “venerar”. Para mim, era um local importante. Era o mais alto e, dali, tudo se via em redor. Lá estavam o Palácio da Pena, o castelo dos mouros e toda a zona “saloia” envolvente. Por vezes, que eram muitas, se o vento ajudava, lançavam-se os “papagaios” e ouviam-se os sinos de Mafra, enquanto se viam e ouviam as avionetas que aterravam e descolavam ali mesmo, na Granja! Soberbo!
Por último, se fosse para a esquerda, descendo a estrada para a Granja (“Granja do Marquês”), no sentido de Sintra, tinha à direita a loja do Crispim (possivelmente o homem mais rico da terra), uma casa anexa e um enorme pátio interior, onde até uma tourada lá se fez. Do lado esquerdo, a casa do Crispim com a sua capela, que servia a povoação. Depois a barbearia, pequena e de que recordo, nas paredes, calendários e quadros alusivo à 2ª Guerra Mundial. Lá estavam, fotos da Royal Air Force e da família real inglesa. Continuando, até que a estrada começava a descer, haviam, do lado direito, algumas casas e um muro, revestido de desperdício de azulejos, muito colorido. Chegados ao início da descida, onde um dia vi a passagem dos ciclistas da Volta a Portugal, mas na subida, levando o José Martins até Lisboa (Estádio Nacional) para a consagração final. Do lado esquerdo, avistava Sacotes, pequena povoação que, para mim, era outro mundo. Ainda por cima havia toda uma história referente a um indivíduo, o “Maneta”, que tinha sido encontrado morto em casa e que se dizia ter caramelos lá em casa que, de vez em quando, dava aos miúdos. Jurei nunca mais comer caramelos. Podiam ser do “Maneta”!
Prosseguindo, estrada abaixo, chegava junto à pista do aeródromo da Granja (Base Aérea nº 1), a qual atravessava a estrada. Era estranho e originou alguns acidentes entre avionetas e automóveis, embora estes fossem raros nesses tempos.
Muito também do conhecimento geral eram os voos a que os pais tentavam levar os filhos com tosse convulsa, pois se dizia que fazia bem e talvez fizesse. Só que, por vezes, o azar bate à porta e houve um caso de avioneta caída e morte dos ocupantes. E, terminaram os voos!
Da Granja para lá, Pêro Pinheiro ou Montelavar, isso eram outros mundos!
Em linhas gerais, este era o meu primeiro Mundo, atendendo a que esta seria a minha terra de adopção.

** Só há poucos dias soube que essas tai botijas, eram de "Licor de Genebra"

(continua)