Baseando-me em trabalhos apresentados nos "Cadernos de Cultura"- "Medicina na Beira Interior, da Pré-História ao séc. XX", da Universidade da Beira Interior, hoje vou começar uma série de "posts" relacionados com a vida em Salvaterra do Extremo, nos séc. XVIII e XIX.
Embora esses estudos sejam efectuados tendo em atenção o universo do concelho de Idanha-a-Nova, ou até do distrito de Castelo Branco, permito-me fazer alguma extrapolação para o caso específico de Salvaterra do Extremo, baseando-me na minha própria observação ou conhecimento através de informação, escrita ou oral. Espero, assim, não andar muito longe da realidade. Oxalá o consiga!
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Campos de Salvaterra e os longes que a vista alcança. À direita, o Erges serpenteia e a Espanha é já ali! |
A vida em Salvaterra do Extremo, no século XVIII
A esperança de vida, à nascença, era inferior a 27 anos para os homens e a
28 para as mulheres. A taxa de mortalidade era elevada, sobretudo nos primeiros
anos de vida, tendo em vista que cerca de metade das crianças morria antes de
atingir os 10 anos e meio. A morte era, portanto, um fenómeno natural e com o
qual era preciso viver. Mas, como se isso já não bastasse, ainda havia períodos
em que a mortalidade atingia números inusitados devido a epidemias. A fome, a
agrura do clima e a escassez de água em muito contribuíam para isso. São vários
os relatos que nos chegam acerca da raia da Beira, das suas qualidades
naturais, dignas de realce no que respeitava às defesas do território e de
clima agreste. No que a Salvaterra do Extremo diz respeito, já as Memórias
Paroquiais, de 1758, diziam “ e nelle se
experimentarão no tempo de Verão grandes calores por ser esteril de agoas”.
Lá diz o povo “seis meses de Inverno após seis meses de inferno…”.
Os campos eram pobres, divididos em grandes propriedades, e vivia-se da
cultura e da criação de gado, bovino, ovino e caprino. As árvores eram
escassas, as margens dos rios, abertas, não tinham protecção e a água
evaporava-se mais depressa, secando os leitos e trazendo a doença a pessoas e
animais.
A terra era uma “terra de pão”, normalmente centeio e também de aveia, em
épocas de escassez do primeiro. A produção de cereais era a principal fonte de
economia da região o que, como é natural, também era a sua maior fraqueza quando
a produção era afectada por inconstância climática, moléstia ou ainda por
situações de guerra de que esta região era fértil e que lhe traziam além da
desorganização da vida agrícola, provocando a escassez de alimentos, também
doenças como o tifo e a desinteria (doenças de exércitos em campanha). Há
notícia de que em 1704 e 1762, houve crises de subsistência, epidemias de tifo,
fugas e destruições. Na Zebreira, povoação vizinha de Salvaterra do Extremo, em
Maio de 1704, a população abandonou a vila não ficando ninguém para enterrar os
mortos. Disso nos dá conta o padre que fez o registo do óbito, dizendo que um
homem foi sepultado num chão de Domingos Vaz Ripado, junto ao Castelo, por não
haver naquela vila quem o sepultasse, por terem fugido todos os moradores
quando o inimigo ali deu entrada.
Conquanto as situações de guerra se pudessem considerar excepcionais, por
passageiras, as doenças eram presença continuada na vida das populações. Assim,
no quadro patológico desta região raiana podem incluir-se, o tifo, febres
tifóides, a desinteria e outras doenças do aparelho digestivo, o paludismo (que
permaneceu endémico até ao séc. XX e que era conhecido e temido, pelos nomes de "sezões" ou "maleitas"), doenças do aparelho respiratório (catarros
e gripes) e o, decerto endémico, carbúnculo, dado esta ser uma região de gado.
Estas doenças tiveram, garantidamente, grande influência na mortalidade,
quer natural quer epidémica, as quais se iam verificando ciclicamente. Na
mortalidade natural ocorriam picos cada 4 a 5 anos e na epidémica a média era de
7 anos.
Bibliografia:
Maria João Guardado Moreira, in Medicina na Beira Interior da Pré-História até ao Séc. XX, Cadernos de Cultura, vol. 7, Nov.1993