quinta-feira, 21 de agosto de 2014

"Cisma" no "cristianismo" ou ... uma nova religião ?

Até parece que estou numa de "post's" religiosos! É pura coincidência!
Este "post" era para ser colocado quando começou o problema do BES, entretanto houve outras prioridades e apesar do tempo ir passando, creio não ter perdido actualidade. Aliás, penso que novos capítulos estarão para vir. Oxalá não sejam de fim mais triste do que já foram os até aqui desenvolvidos! É esse o meu desejo e penso será o da totalidade dos portugueses ou, pelo menos, a grande maioria!














É muito grande a confusão
que grassa no "cristianismo".
O problema é, tanta devoção
ao  "santo" São Capitalismo!

E nos crentes o fervor é tanto,
até de muito boa gente ateia,
que querem o Espírito Santo
já, imediatamente, na cadeia!

Estará certo? Eu não o sei!
Pode estar certo, ou errado!
Certo que eu não o provei
e dizem que está Salgado!

Começou no Oliveira e Costa,
e nele já não há quem pegue.
Agora, o bom povo até aposta
qual o senhor que se segue.

Com ele veio o Loureiro, conselheiro.
Não foi grande a surpresa para mim,
mas não posso esquecer o Rendeiro
e que já havia o Gonçalves, Jardim!

E assim vai a nossa vida,
sem grande vontade de rir!
Andar de cabeça perdida
à espera do que há-de vir!

(Retirado de www.profprbm.blogspot.com)
E assim vai o “cristianismo”
deste nosso alegre Portugal,
onde o bendito capitalismo
é uma religião! Do Capital!

Após o Loureiro e o Costa
muitos outros “crentes” virão
e é disto que o povo gosta
neste meu país tão cristão.

E neste meu tão triste país,
com os bancos já em saldo,
a dona Inércia é quem diz
que quem sabe é o Ronaldo!

Se ela tem razão, ou não,
isso agora aqui não cabe
mas, crescer tanto milhão,
só o Ronaldo é que sabe!



Ao ouvirem um  tão grande pranto,
com acompanhamentos de alaúde,
vieram“Angeles” e ao Espírito Santo
se propuseram, tratar-lhe ... da saúde!

Por mão divina que os conduz,
desceram os “Angeles” à Terra!
Propõem-se iluminar a ... Luz
e com Paz acabar uma guerra!




É altura de ir dizendo a este povo:
-Tomem cuidado, ponham-se a pau,
pois prometem-lhe um banco Novo
mas, pode cair tudo no banco Mau!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Nossa Senhora da Assunção não ajudou, mas ...

A Nossa Senhora da Assunção não ajudou, mas deve ter sido apenas porque eu também não tinha confidenciado, nem a Ela nem a ninguém, que me propusera fazer uma grande reportagem fotográfica dos festejos em sua honra.
Aconteceu, pois, que quando me propunha iniciar a reportagem, um erro de fotógrafo amador e descuidado fez com que a bateria da máquina estivesse descarregada. Porém, como não sou de desistir, aqui lhe fico o meu preito. Espero que fique a contento!

Assim, dum Boletim Informativo da Junta de Freguesia de Colares, vou fazer a transcrição de excertos dum texto de António Caruna, que foi um emérito colarense, aproveitando igualmente para lhe prestar uma pequena homenagem.

A PADROEIRA DA NOSSA FREGUESIA

Diziam os antigos que a primeira Padroeira da localidade de Colares fora Nª Srª de Milides.
/...
Até há bem poucos anos, realizavam-se no mês de Setembro as festas de Nª Srª de Milides, sendo o seu andor transportado, preferencialmente, por rapazes da terra que, na altura, estivessem no cumprimento do serviço militar.

Nossa Senhora de Milides
Até à reconstrução da ermida, efectuada na segunda metade do século XX, a sua imagem – Nossa Senhora com o Menino ao colo – estava colocada num altar da Igreja Matriz.
Pese embora a tradição multissecular, o facto é que, no testamento de Joam Roza, feito em 26 de Julho de 1442, este manifestou a vontade de ser sepultado “ ...dentro da Igreja de Santa Maria de Colares...”, templo que nada tinha a ver com a ermida de Nª Srª de Milides. Outros testamentos, de 1442 a 1630, a maior parte deles com datas posteriores à da criação da Paróquia de Colares, indicam que a nossa Padroeira era Santa Misericórdia.
O testamento de 10 de Fevereiro de 1630, de Maria Godinho e Luís Pestana, elaborado por ambos, moradores no Vinagre, foi, dos que conhecemos, o último onde é feita referência a Nª Srª da Misericórdia, nos seguintes termos: “...perante mim tabelião, lhes fizesse esta aprovação a qual lhes fiz em todo, tendo presentes como testemunhas o ditto Reverendo padre Ambrozio, Reverendo Lourenço Álvaro Morgado, cura da Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia desta villa (...) e eu Marçal Gomes Bravo, público Tabelião de Nottas por sua Magestade (...) e assinei de meu publiquo sinal.”
Este Cura foi pároco de 1630 a 1635 e o Tabelião Marçal Bravo exerceu as suas funções de 1626 até, pelo menos, 1676.
A referência mais antiga a Nª Srª da Assunção, como nossa Padroeira, encontra-se no testamento de Manuel Brito, morador na Graciosa, termo da Villa de Colares, redigido em 1655 pelo “Padre Joam Cardozo, Coadjutor nesta Igreya de Nª Srª da Asumpção, desta Villa de Colares”.
À época, o Cura Manuel Seres de Gouveia era o Pároco de Colares, cargo que exerceu até 1663.
A imagem de Nª Srª de Milides esteve durante anos num altar da Igreja Matriz. É de roca e de vestir e tanto Nossa Senhora como o Menino aparecem coroados.
Não existe, no entanto, qualquer informação fidedigna que nos possa levar a afirmar que Nª Srª de Milides tenha, efectivamente, sido a nossa Padroeira.
Esta imagem está, actualmente, na capela da Quinta de Milides.

Nossa Senhora da Assunção
No que respeita a Nª Srª da Assunção, nossa Padroeira, a imagem mais antiga existente na Igreja Paroquial, também de roca, da época ou estilo do séc. XVIII, não simboliza, devido à sua concepção, a atitude de elevação milagrosa da Virgem ao Céu. Por este motivo, e durante o paroquiado do PE. Manuel Moura Machado, foi colocada numa peanha existente na parede da Sacristia e substituída por outra, construída por um artífice de Braga, em madeira maciça, mais condigna com a atitude da Assunção.

Nossa Senhora da Assunção
Sublinhe-se a especial devoção das nossas gentes patenteada também nas várias igrejas existentes no âmbito da Paróquia, votadas a Nossa Senhora nas suas diversas invocações.
/...
Seguramente, desde meados do séc. XVII que Nª Srª da Assunção é a Padroeira da nossa Freguesia.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Virgem da Consolação !


Inserto numa colectânea do grupo musical NOA NOA, intitulado LÍNGUA, vol.1, descobri um trecho antigo, dedicado à Virgem da Consolação ou, mais propriamente, a Nossa Senhora da Consolação.


Escreve Filipe Faria, um dos componentes do grupo:
Todas as línguas mudam com o tempo. Evoluem e adaptam-se aos usos inovadores das comunidades, às suas idiossincrasias e hábitos. A língua não pode ser entendida como uma entidade imutável, estanque, parada ou desenhada no tempo e pelo tempo. Ela é, pelo contrário, resultado de uma dinâmica imensa da mesma forma e com o mesmo fulgor da comunidade ou da humanidade que muda... vagarosa mas imparável.

Dedicado à memória colectiva definida pelas diversas culturas e línguas ibéricas, “Língua” é uma manta de sons “para além do Ebro” que resulta no português, castelhano, mirandês, galego, asturiano, basco ou catalão. Este projecto viaja entre o que há de mais comum e mais diferente na História da cultura ibérica explorando as fronteiras geográficas, culturais e conceptuais da tradição e da ancestralidade com a contemporaneidade ou a interculturalidade.

Trata-se de música, possivelmente recolhida do cancioneiro de Salvaterra do Extremo, lembrando a ancestralidade da devoção de Salvaterra do Extremo a Nossa Senhora da Consolação.
Um pequeníssimo excerto da faixa ( 1min 47 seg ), poderá ver-se e ouvir-se em: 
  

A letra deixo-a eu aqui:





Virgem da Consolação

Virgem da Conselação,
quem vos varreu a capela?
A gente de Salvaterra,
com raminhos de marcela.

Que têndeis na mão, que luz,
que têndeis na mão, que luz?
A protecção das donzelas,
despachada por Jesus.

Virgem da Conselação,
vosso nome é Maria,
têndeis um manto de seda
forradinho de alegria.

Que dais ao vosso menino,
que dais ao vosso menino?
Todos os meninos choram,
só o vosso se está rindo.

Que têndeis na vossa c’roa,
que têndeis na vossa c’roa?
Uma pombinha de prata,
tem asas e não avoa.

Que têndeis na mão, que luz,
que têndeis na mão, que luz?
A protecção das donzelas,
despachada por Jesus.

Quem vos varreu o terreiro,
quem vos varreu o terreiro?
O povo de Salvaterra,
com raminhos de loureiro.

Quem vos varreu a capela,
quem vos varreu a capela?
A gente de Salvaterra,
com raminhos de marcela.

Quem vos pudera levar(e),
quem vos pudera levar(e)
para a minha companhia,
em braços sem descansar(e).

Quem vos pudera trazer(e),
quem vos pudera trazer(e)
para a minha companhia,
em braços sem ninguém ver(e).

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O "ouro" de Salvaterra do Extremo !



Aqui, há ouro!!!!

Para que o Mundo oiça e veja que Salvaterra do Extremo sempre foi uma terra de ouro. 
Ouro, não só do reluzente, que se extrai do ventre da terra, mas também do que antigamente se via nas suas searas douradas, os seus ares, as suas gentes e até as suas águas que valem ouro. Sim, porque embora parca de águas, não podemos esquecer as águas da Fonte Santa que em tempos ainda bem recentes, pertenciam a Salvaterra do Extremo e para muitos lhe traz a saúde, nossa riqueza maior , muito embora, hoje em dia, para usufruir das suas benesses já seja necessário dispender algum "ouro"!

A SIC, honra lhe seja feita, veio trazer-nos à lembrança apenas o vil metal mas Salvaterra do Extremo merecia muito mais! À falta de melhor, para quem estiver interessado e se queira transformar em garimpeiro, aqui ficam algumas dicas. É só ver o vídeo!

Agora, tempo de férias e perante os problemas do BES, façam favor de aproveitar e todos à uma, toca a correr até Salvaterra que o ouro pode acabar! 

(Por pouca habilidade minha nestas coisas da internet, não coloco o vídeo mas, com as minhas desculpas, aqui fica o seu endereço.)


sexta-feira, 25 de julho de 2014

A vida em Salvaterra ( 6 ) - Judeus, Cristãos-novos, Medicina e Inquisição


Na cantaria da ombreira da porta o 105 e a cruz, gravados na pedra,
indicando casa de cristão-novo.
O 105, provavelmente, seria o nº referente a alguma listagem, não é nº de porta!

Por completo desconhecimento, só há cerca de 2 anos fui confrontado com os vestígios da comunidade judaica em Salvaterra do Extremo. O facto é que, segundo parece, os judeus entraram na Península Ibérica com a ocupação romana. Motivos, mais que suficientes, seriam os novos mercados e a existências de riquezas minerais. A mineração era uma das muitas actividades judaicas. Assim, não custa a crer que se tenham fixado nesta zona da Beira Baixa, nomeadamente em Salvaterra do Extremo, conhecida a riqueza do solo, em ouro, prata, estanho e cobre, por exemplo. Ainda hoje se podem observar muitos vestígios da exploração mineira, alguns dos quais bem mais recentes e devidos à exploração do volfrâmio.
Porém, se as minas eram e são de todos conhecidas, o traço físico judaico, como atrás refiro, passou-me, e penso que à grande maioria dos habitantes da terra, totalmente despercebido, embora lá esteja, bem à vista de todos.
É o caso de boa parte das cantarias das entradas das casas, apresentando a pedra granítica de quinas sutadas (não em quina viva) e nalgumas delas, cruzes e um número gravados. Estas cruzes indicariam que os residentes seriam cristãos-novos e o número, deduzo eu que se trataria de número referente a alguma lista (censo) pois que, de certeza, não era número de porta.
Posto isto, não será de admirar que também a esta terra tenham chegado as agruras e tormentos da Inquisição.

De seguida, se relata um caso referente a Salvaterra  do Extremo. 

Em Portugal, desde sempre, quase todos os médicos eram judeus. Perseguidos, também quase sempre, foram um dos muitos alvos da Inquisição.
Em Salvaterra do Extremo há conhecimento dum tal João Nunes, natural de Idanha-a-Nova, filho de Manuel Antunes, “o Papudo”, barbeiro, e de Antónia Nunes. Era boticário, solteiro, de cerca de 37 anos e foi preso no dia 10 de Novembro de 1750, por judaísmo. Por sentença de 14/02/1755, foi mandado tratar no Hospital de Todos os Santos e entregue aos parentes, por não ter capacidade para estar em juízo. A verdade, porém, é que vários membros da família também já estavam presos, designadamente os seus pais e os tios Álvaro Rodrigues e Leonor Nunes. (Tal como consta do processo nº 5173 da Inquisição de Lisboa, existente no Arquivo da Torre do Tombo).

Nota do autor do blog: 
No meio de todos estes azares, o infeliz boticário, se ainda sobreviveu muito tempo, lá teve a sorte de já não estar no Hospital de Todos os Santos no dia 1 de Novembro! A não ser que aqui se aplicasse a máxima "mais vale a morte que tal sorte"!

Auto de fé, no Terreiro do Paço, em Lisboa.
(retirado da wikipédia)

Bibliografia:
Joaquim Candeias da Silva, in Medicina na Beira Interior da Pré-História até ao Séc. XX, Cadernos de Cultura, vol. 15, Nov.2001

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A vida em Salvaterra ( 5 ) - Mezinhas e curandices !


Informação aos leitores mais sensíveis:
Este "post" contém matéria que, embora verdadeira, poderá repugnar a quem a ler! Aqui fico o aviso!

( retirado de lavioletera.com.br)

Práticas Etnomedicinais (Medicina popular). Mezinhas e curandices

Baseados na obra de Jaime Lopes Dias, Etnografia da Beira, podemos tomar conhecimento de algumas práticas etnomedicinais, vulgo medicina popular. Enunciamos as doenças e as curas que, embora podendo variar de terra para terra, mantêm dum modo geral os seus princípios. Assim, em Idanha-a-Nova, o tresorelho cura-se com enxúrdia de galinha e para curar impingens esfregam-se estas com um dedo molhado em saliva; em Vale do Lobo (Penamacor), a furunculose cura-se com sopas de cobra e as feridas curam-se colocando sobre elas teias de aranha; em Teixoso (Covilhã), cura-se a loucura colocando sobre a cabeça do louco, em forma de capacete, um cachorro ou cão pequeno, aberto ao meio, de modo a que o sangue escorra pelo rosto; no Ladoeiro (Idanha-a-Nova), cura-se a icterícia, por muito crónica que seja, com um cozimento de piolhos da cabeça humana, enquanto em Idanha-a-Nova, para o mesmo efeito usam deitar os piolhos vivos dentro de um ovo bebendo-o em seguida; em Segura (Idanha-a-Nova) para que os tumores ou abcessos venham à supuração aplica-se-lhes um emplastro de excremento humano; ainda em Idanha-a-Nova, as feridas curam-se urinando-lhes em cima e a febre desaparece bebendo urina; em Benquerença (Penamacor), no dia em que dão as maleitas, chá feito com urina de rapariga virgem, posto à geada e bebido nesse dia, cura-as; no Ladoeiro (Idanha-a-Nova), as enxaquecas e as cefaleias curam-se com o sarro do fundo dos penicos pouco limpos, colocando em panos, sobre a testa do paciente.
O uso de excrementos e urina não é tão invulgar assim, sendo referenciado já na Antiguidade. E embora sejam práticas ancestrais e caindo em desuso, no séc. XVIII há alguém que crê que a urina do mancebo sem barba é útil aos estigmáticos, cura a sarna, resolve os tumores e impede a gangrena. A do homem casado, quando bebida pela mulher, facilita o parto e actua contra a mordedura de cobra. Quanto ao uso dos excrementos sólidos, diz que o esterco é de grande uso para tirar as dores de encanto, para madurar os antrazes pestilentos e para curar a angina. O esterco de menino lactante, reduzido a pó, erradica a epilepsia muitos dias. A água do esterco humano cura as unhas dos olhos, e todos os vícios da tonisa adnata, lançando neles umas gotas, aviva as cores do rosto, produz cabelos, cura as chagas corrosivas e as fístulas, desfaz os sinais das cicatrizes. Interiormente tomado acode à epilepsia e hidropsia, expulsa as pedras dos rins, a tinha, a erisipela exulcerada e os alfectos cutâneos untando a parte, mitiga as dores da gota, mortifica o cancro e cura a icterícia.
Já bem no 2º quartel do século XX assinala-se um caso de utilização de excrementos de vaca, para fins curativos. Tal prática teve lugar em Oledo (Idanha-a-Nova) e o relato é o que segue. Uma menina de dois anos de idade estava sentada de costas para a lareira, fez balanço com o banco e caiu de costas no lume. Levantou-se a chorar mas já com as nádegas assadas e com as brasas agarradas ao rabinho. Era domingo, não havia médico e a farmácia não era perto, perante o choro da criança e desespero da mãe, uma velhota alvitrou que se lhe pusesse bosta de vaca em cima da queimadura e quanto mais depressa melhor. A mãe, desesperada, não pensou duas vezes. Foi buscar a bosta que envolveu numa fralda quente e colocou no rabinho. A criança chorou mas depois sossegou e adormeceu. Regressou o marido, da farmácia, com uma pomada mas já não foi utilizada. No dia seguinte, foi ao médico, explicou o tratamento que tinha feito e o médico disse-lhe para continuar a fazer o mesmo, cuidando sempre de alguma higiene. Passado pouco tempo estava boa e sem cicatrizes.
Em Salvaterra do Extremo práticas normais, eram em pleno séc. XX e talvez ainda sejam, algumas que a seguir se enunciam.
Para curar feridas (estancar o sangue), usava-se raspa do chapéu de homem, cinza de cigarro ou do borralho e açúcar, além das teias de aranha.
Para a dor de barriga e prisão de ventre, azeite onde se fritaram alhos, ainda com alguma quentura e espalhado, na barriga, com a mão.
Para a prisão de ventre, um talo de couve untado com azeite, utilizado qual supositório.
Para baixar a febre, um pano com vinagre, na testa e nos pulsos.

O uso de plantas na alimentação, como condimento, e no tratamento de doenças, também em Salvaterra era comum e nos seus campos elas abundam.
Seguidamente se enumeram algumas delas:

Hortelã brava, ou mentrasto ( Mentha maveolus Ehrh.)
Pertence à família das labíadas. Usa-se em culinária e em medicamentos caseiros. Devido ao mentol que possui, é um bom desinfectante das vias respiratórias. A cultura faz-se de Abril a Outubro.

Poejo (Menthapulegium L.)
Pertence à família das labíadas. Usa-se em culinária e em medicamentos caseiros. É um condimento (o gaspacho não o dispensa), um tónico digestivo e emenagogo e emprega-se em saboaria. A cultura faz-se de Maio a Agosto.
(retirado de .http://auren.blogs.sapo.pt)

Urtigão, ou urtiga-maior (Urtiga dioica L)
Pertence à família das urticáceas. Planta muito acreditada como revulsivo e anti-reumatismal de uso externo. Colhem-se as folhas no Verão.
(retirado de www.plantasquecuram.com.br)
Amor perfeito bravo (Viola arvensis Murray)
Pertence à família das violáceas. É empregado com peitoral, expectorante, emoliente, béquico e diaforético. Serve para doenças da pele, prisão de ventre e reumatismo. Desenvolve-se de Março a Junho.
(retirado de www.obotanicoaprendiznaterradosespantos.blogspot.pt)
Coentrinho (Geranium dissectum L.)
Pertence à família das geraniáceas. Como infusão forte, serve para gargarejos e como infusão fraca, tem utilização no caso de cistite, catarro pulmonar crónico e enterite crónica. Desenvolve-se de Março a Julho.

Orégão (Origanum vulgare L.)
Pertence à família das labíadas. Usa-se como condimento e como terapêutico (excitante carminativo e vulvenário). Colhe-se em Junho e Julho quando a planta se encontra florida. Das folhas secas, pode fazer-se chá. Utilizado para aplicações de uso externo, contra o reumatismo e de uso interno, no tratamento da tosse, da asma, digestões difíceis e anemias.

(Nota: As gravuras, onde não indicado, foram retiradas da wikipédia.)

Bibliografia:

Maria João Guardado Moreira, in Medicina na Beira Interior da Pré-História até ao Séc. XX, Cadernos de Cultura, vol. 7, Nov.1993


sexta-feira, 11 de julho de 2014

A vida em Salvaterra ( 4 ) - Meados do séc. XX




Por sobre o casario, o reservatório para abastecimento de água à povoação.
Construído já nos anos 70 do séc. XX.

A vida quotidiana em Salvaterra do Extremo, em meados do século XX

Sobre a vida em Salvaterra do Extremo, socorremo-nos do Livro do Posto de Despiolhagem e Desinfecção, de Penha Garcia, Monfortinho, Salvaterra do Extremo e São Miguel de Acha que se encontra no Arquivo da Misericórdia de Idanha-a-Nova.
Não é completamente verdadeira a ideia de que as famílias eram muito numerosas, mas eram efectivamente uma parte muito significativa. Talvez só um pouco mais de 20% tinha quatro ou mais filhos.
Rara era a família a quem não morria um ou mais filhos, devido a más colheitas, aos calores ou epidemias. Havia mulheres que nem despiam o luto, fosse por familiar, vizinho ou amigo. Falta de médicos e medicamentos, pouca higiene e má alimentação estavam na origem de doenças como a varíola (bexigas doidas), sarna (tinha), sezões (maleitas), tifo ou doenças de pele que muitas das vezes conduziam à morte.
Portanto à alta natalidade corresponde uma alta mortalidade, sendo esta maior na infância, onde o sarampo e a desidratação matam com frequência.
No que respeita ao vestuário, este era pouco e, de ordinário, resumia-se a saiote, saia, corpete, blusa, camisa e o lenço, dobrado em três e atado pelo cimo da cabeça, ao queixo ou de outro modo, no caso das mulheres. Os homens vestiam, calças, casaco, camisa, ceroulas, colete e chapéu. As crianças usavam um macaco de perna curta e sem mangas, com abertura atrás e à frente para que as necessidades fisiológicas fossem feitas sem problemas e com menos trabalho para as mães. Isto quando não andavam nuas ou, como se dizia, “encouras” ( de em couro ).
O lenço era a peça que mais se identificava com a pessoa que o usava. Onde quer que estivesse, era sempre usado pela mulher. Na rua, no trabalho, na festa ou em casa. O modo como era atado e colocado, assim como o desenho e a cor, variava conforme a mulher era casada, solteira, viúva, tímida ou brincalhona.
O xaile é peça usada pela mulher que já é mãe, é quente para o filhinho e pela sua resistência passa de geração em geração. Da avó para a mãe e, muitas vezes, desta para filha. É negro e, na viúva, tapa o frio e a tristeza.
Quanto ao calçado, normalmente só quando chegavam à idade adulta e já pareceria mal andar descalço, e se havia alguns “cobres”, o sapateiro lhes fazia uns pesados sapatos, botas ou tamancos a partir de moldes que possuía.

A habitação, na maioria, não excede os 30 m2 e os 4 metros de altura. No máximo 4 compartimentos e as paredes, por vezes, em taipa e normalmente uma janela, havendo casos de nenhuma e também não muitos com duas. Normalmente também é só de um piso e uma só porta para o exterior. O 1º andar, se o havia, era assoalhado e o piso térreo em lajes, bosteada nas uniões das mesmas. Para bostear diluía-se a bosta de vaca (“bosta santa”) em água e vassourava-se o chão, ficando este brilhante como o ouro e com um bom cheiro a lavado! Na Páscoa era época de limpeza geral da casa, do corpo, da alma e da aldeia, por isso havia que preparar a casa para receber a visita do padre para dar as “Boas Festas”.
A regra é as casas só terem uma cama que é a do casal. Por vezes há outra para os filhos e filhas, enquanto pequenitos, se arrumarem uns para cima outros para baixo, qual sardinha em lata. Quando maiorzitos, os filhos vão para o palheiro onde, depois de despidos se metem nus no meio da palha que os aquece e enxuga. Não muito longe de Salvaterra do Extremo, em Penha Garcia, a média por cama era de 9 pessoas!
Algumas casas, têm quintal e, ou, estrumeira, grande parte tem palheiro e animais em casa. Porcos, vacas e burros são igualmente vulgares. (Em Salvaterra, os porcos estavam, dum modo geral, em furdas, fora da zona habitacional. É conhecido o complexo de furdas desta terra!)

Uma furda!
No respeitante a higiene, embora as casas se apresentassem limpas, esta era muito pouca. Não era hábito lavar as mãos antes de comer ou tomar banho mais que uma vez por ano. Dormia-se com a roupa do dia e, no dia seguinte, ia-se trabalhar com a mesma. Não havia retretes nem casas de banho.
Os despejos, fezes, urina e águas sujas, eram lançados na rua, tal como o lixo. Só as chuvas de Inverno lavavam tudo.

A alimentação era má, essencialmente vegetal e pão, de trigo ou centeio, conforme as posses e a abundância. Em época de crise até pão de farelo se comia. O pão é o “pãozinho de Deus” e ninguém concebe colocá-lo de costas no cesto ou não o beijar quando se apanha do chão onde caiu.
A maioria da população come caldo, uma sopa de vegetais temperada com sal e um pedaço de toucinho ou farinheira. O tempero com azeite era escasso.
De manhã (almoço), um caldo, à noite (ceia), um caldo, com um pedaço de toucinho, farinheira, um terço de sardinha, ou nada. Quando se ia trabalhar levava-se a merenda, pão, azeitonas ou azeitonas e pão com toucinho ou enchido, davam para jantar e merenda. Rancho melhorado, só nos domingos, festas ou dias santos e era se a bolsa permitia! Nesses dias podia haver, carne do talho ou da salgadeira, normalmente de porco. Mesmo o que se criava, muitas das vezes não se comia. Era para vender! Um almoço, no domingo, podia ter sopa de feijão catarino, seguido do mesmo feijão, cozido e regado com um fio de azeite. Vinho, quase só na taberna! Directamente da natureza vinham, alguns cogumelos (os tortulhos), as amoras, bolotas de azinheira e os figos de pita (figos chumbos), tudo para ajudar a completar a parca alimentação. Carne de caça só para quem tinha posses ou arma. Peixe, só do rio, bogas, bordalos, barbos, enguias, cumbas ou trutas, mas pouco. À sardinha e ao bacalhau só alguns chegavam!

A população é, dum modo geral, jovem. Em 1944, a grande maioria está entre os 20 e os 64 anos. Também muito mais de metade trabalha na agricultura (jornaleiros)

Tudo o que ficou dito, só prova a espantosa capacidade de gestão da riqueza (se a isto se pode chamar riqueza), do espaço e do tempo, que tinham as pessoas desta época!

Bibliografia:

Maria João Guardado Moreira, in Medicina na Beira Interior da Pré-História até ao Séc. XX, Cadernos de Cultura, vol. 7, Nov.1993