Na avenida Infante Santo, em Lisboa, o
parque de automóveis e o edifício defronte, ocupam o espaço onde existiram as
instalações da Sociedade ARGIBAY de Construções Navais, Lda.
(retirado de Google maps)
As instalações “do” ARGIBAY, ficavam no
sítio da Cova da Moura, antiga rua da Torre da Pólvora, “entalada” entre o que
já era a avenida Infante Santo e uma parede rochosa que mais parecia uma gruta
e onde hoje é o edifício nº 21 dessa avenida, esquina da rua Embaixador
Teixeira Sampaio.
E no dia 29 de Agosto de 1955, às 08.00
horas, à porta do que eram as instalações da “Sociedade ARGIBAY de Construções
Navais, Lda”, lá estava eu para iniciar o meu percurso de vida activa.
Constavam de. oficina de Mecânica, logo a
seguir à entrada, do lado esquerdo, seguia-se a nave da Caldeiraria e lá ao
fundo, fora da nave e aproveitando uma gruta, estava um fogão, uma chapa longa
onde se poderia aquecer algo para o almoço. Do lado direito, também à entrada,
ficava o escritório do Serviço de Pessoal e, penso que ainda antes, a secção de
Tubos. Por cima do Serviço de Pessoal, ficava a Sala de Desenho e cá em baixo a
seguir a uma escada de acesso a essa Sala de Desenho, havia uma zona para
reparação de motores, dos compressores e máquinas de soldar, todos eles móveis,
para serviço no exterior (principalmente para a reparação de navios ao cais).
Depois, ainda do lado direito havia o que
seria uma “zona morta”, de passagem para as latrinas e urinóis e também para o
vestiário/refeitório. As latrinas, talvez uma meia dúzia, eram do tipo “turco”
e com murete, velho e sujo, até à altura de cerca de metro e meio. A
privacidade era nula mas, pasme-se, havia quem encontrasse ali, naquele local
escuro e mal cheiroso, o melhor local para comer uma “bucha” às escondidas. O
vestiário/refeitório, com módulos cacifos, cubos de pouco mais de 50 cm,
abertos por detrás, em chapa galvanizada e encostados à parede, deixavam livre
um espaço central para uma mesa onde caberiam, no máximo, talvez umas 20
pessoas, e uns lavatórios corridos, em zinco, que também não dariam para mais.
E seria este o meu mundo por apenas 9
meses. mas que me ficaram bem na memória!
Direcção:
- Eng.
Milton, que aparecia esporadicamente e julgo seria o Eng. Chefe.
- Eng.
Rui Abrantes, que era o Eng. Em permanência nas instalações da empresa.
- Armando
Antunes , a quem poderei chamar o Encarregado Geral e que vivia numa casa
contígua às oficinas, mas exteriormente a estas.
Serviço de Pessoal:
- Serra
(?), chefe do serviço.
- Olímpio,
apontador. Teve um acidente doméstico que o deixou quase cego duma das vistas.
Encarregados da reparação de navios:
- Iglésias
- Carmelindo
Havia ainda mais um ou dois encarregados
Desenhadores:
- Desenhador
senior, que não recordo o nome
- Cunha,
também desenhador, talvez copista e que era da minha turma no 4º ano, na
Marquês de Pombal.
A Oficina de Mecânica
Dentro desta oficina, à entrada, do lado
esquerdo, havia uma zona de recepção e saída e materiais, normalmente flanges e
válvulas novas ou já reparadas, uma máquina esmeriladora de pedestal e ainda
deste lado ficavam os tornos mecânicos que, penso, seriam talvez umas 6
unidades (tendo em conta o pessoal de que me recordo), em frente, na parte
central ficavam as bancadas de serralheiro e que teriam, no máximo uns 12
postos de trabalho, 6 de cada lado. Lá ao fundo era a Ferramentaria. Do lado
direito e logo á entrada, um Engenho de furar, radial, uma bancada de
serralheiro com, talvez 4 postos de trabalho e entre esta e a parede desse lado
mais 2 Engenhos de furar, mais pequenos.
Seguindo em frente, estava uma pequena
escrevaninha, tipo púlpito, onde normalmente se colocava o Encarregado/Mestre
Carolino, a Frezadora e uma máquina de testes das válvulas depois de reparadas.
Encostado à parede desse lado ficava o Gabinete/Escritório do
Encarregado/Mestre, um Limador e um armário da ferramenta da Frezadora
Encarregado Geral da Oficina de Serralharia:
- Mestre Carolino. Homem de cerca de 50 anos, portuense e portista. Rude no
falar mas boa pessoa. A seguir ao almoço, vinha quase sempre mais carrancudo,
em vez de vir “alegre”! Boina puxada atrás e as faces mais coradas, eram o
sinal de todos conhecido.
Torneiros e Frezador:
- Alexandre.
Era aquele que eu, e não só, considerava o elemento mais válido. Obturador ou
sede de válvula, fosse em bronze, latão ou aço inoxidável, ao sair das mãos
dele era vedação quase completa, nem quase era necessário fazer o acerto com massa
de “carburundum”. Em 1958, penso que devido à mudança das instalações do
Argibay para Arcena, Alverca, tal como outros, procurou trabalho no Estaleiro
da CUF, na Rocha e por lá ficou, penso que até à reforma. Porém, também era bastante
humilde e nunca lhe terão dado o devido valor!
- Reinaldo.
Cerca de 25 anos, seria um torneiro em formação, oficial ou ainda ajudante, com
alguma qualidade. Bastante expansivo e bom colega, mais tarde penso que terá
tirado o curso da Escola Náutica e apareceu na “Frinil”, empresa associada da
“Lisnave”.
- Júlio
Rato. Cerca de 25 anos, talvez
também ajudante, pois de vez em quando estava no torno dedicado à manufactura
de flanges e, portanto, o de menor precisão. Também bom rapaz, tirou o curso da
Escola Náutica e mais tarde apareceu na “Gaslimpo” e na “Lisnave”, onde já tive
bastante contacto com ele.
- João
Brito. Aprendiz ou ajudante, brincalhão, morava na calçada da Pampulha, ali
bem perto. Suponho que estava quase a ir para a tropa.
- Zé
“Saloio”. Aprendiz, bom rapaz. Pouco tempo mais tarde, encontrei-o a
trabalhar numa casa na calçada Marquês de Abrantes.
Ainda havia um outro que penso teria
regressado da vida militar, e seria este todo o pessoal pois que normalmente
havia um torno vago. Certa vez, esse torno até foi ocupado por um indivíduo, à
experiência, que se intitulava torneiro e dizendo vir da Venezuela onde
trabalhava num torno de 30 metros. Deu-se-lhe um obturador para rectificar e
ele, logo aí, fez asneira da grossa. Perante o facto o Mestre mandou-o para o
torno das flanges, trabalho de aprendiz. Mas, mesmo aí, desajeitado, ao
utilizar uma lima, deixou que os grampos da bucha a apanhassem e lhe
provocassem ferimento num braço. Levado ao hospital, por conta do seguro, esteve
em tratamento ainda durante largo tempo findo o qual na hora de se apresentar
ao serviço teve ordem de “despejo” pois provocava mais estragos que um reles
aprendiz
- Gillot.
Teria 70 anos, ou mais. Suponho que seria catalão. Fresador, baixo, magro, de
óculos, normalmente vestido com calça e casaco de ganga e uma camisola interior
sem mangas, excepto talvez no inverno, quando o frio apertava. Nessa altura,
vestiria mais alguma coisa mas era um cuidado constante para o Mestre Carolino,
porque já noutro inverno ele tinha enregelado, de modo que era ouvir o Mestre
Carolino: “Ó Gillot, estás com frio?”. O aquecimento, rudimentar, era um ou
outro bidon com lenha a arder, dentro.
No que tocava ao trabalho, além do que
normalmente lhe era distribuído, passava o tempo livre a tratar da sua
“menina”, a fresadora, e das ferramentas respectivas. Era vê-lo a limpar,
lixar, olear ficando tudo num brinco e isto tudo sem quase abrir a boca durante
todo o dia.
Serralheiros:
- Alberto.
Na casa dos 55 a 60 anos, talvez não fosse trabalhador efectivo. Talvez fosse,
como alguns outros, trabalhadores temporários ou do “gancho”, como chamavam ao
pessoal que só era chamado quando havia trabalho. Foi o meu primeiro oficial.
Muito calmo, ou seria só aparente pois o receio de ficar sem emprego era bem
forte. Os trabalhadores temporários eram, normalmente só utilizados nos
trabalhos a bordo, no entanto este esteve ainda algum tempo na oficina.
. Salrreta.
O mais idoso e que ia normalmente para os trabalhos a bordo.
- Spínola.
Na casa dos 30 a 40 anos, também trabalhava mais a bordo.
- Sebastião.
Na casa do 30 e tais. Estava, normalmente, na oficina e era também mecânico da
parte de motores. Talvez aquando do fecho das instalações e ida para Alverca,
foi trabalhar para a “Petroquímica”. Recordo que naquela altura colecionava os
cromos das “Raças Humanas”.
- Ramos,
cerca de 60 anos, parecia bastante competente, também de bordo, tinha um
comportamento algo agressivo, ou seja, não dava confiança a toda a gente e
assumia o seu estatuto algo superior. Ninguém ficava satisfeito quando era
escolhido para seu ajudante. Pessoalmente não tenho razão de queixa pois quando
me coube ajudá-lo, fui tratado até com certa consideração, talvez porque eu lhe
inspirasse essa mesma consideração. Foi mais um, dos tais que eram maus mas dos
quais não me posso queixar!
- Humberto,
30 e poucos anos, de bordo ou de trabalho externo. Penso que teria regressado
da conclusão dos trabalhos de montagem da “Celulose do Guadiana”, em Mourão.
Bom profissional, em 1958 foi para o Estaleiro da CUF e talvez em 1959, emigrou
e foi para a fábrica da “Mercedes”, na Alemanha.
- Manuel
Correia, “Manel dos compressores”, 30 e poucos anos, era quem tratava dos
motores dos compressores, máquinas de soldar “Hobart”, ambos móveis e da frota
automóvel. Também boa pessoa, tinha paixão por motas e algumas vezes o estive a
auxiliar. Julgo ter ido para a Petroquímica.
- “Joãozinho”,
menos de 30 anos, bom moço mas pouco expansivo, emigrou para Angola e, pouco
tempo depois de lá chegar, morreu num desastre de automóvel. Esta era a versão
que eu tinha, até ao dia 13 de Setembro de 2015, dia em que, para minha
alegria, consegui contacto com o meu antigo colega Verónico e ele me informou
que essa versão não era verdadeira e o “Joãozinho” tinha ido trabalhar para a
“Cometna”!
- Norberto,
20 e poucos anos, pouco expansivo, bom profissional. Saiu e foi trabalhar para
a TAP
- “Rato”,
cerca de 30 anos, pouco dotado tecnicamente, era mais de trabalhar a bordo.
Tentou a admissão ao Estaleiro da CUF mas não foi admitido.
- João
Baptista “Taínha”, 30 e poucos anos, bom profissional, com problemas de
gaguez, foi o meu oficial durante mais tempo e até ao dia da minha saída.
Adepto do Belenenses, ainda sofria devido à perda do campeonato do ano anterior
e dizia que, por vezes, até sonhava com o último jogo. Tinha estado a trabalhar
na montagem da Celulose do Guadiana, em Mourão. Morava na rua Aliança Operária
e encontrei-o várias vezes. Certa vez fui com ele, ao refeitório do Banco de
Portugal para reparar uma caldeira.
- António
Santos Costa “Compadre”, cerca de 25 anos, ajudante, foi o 1º a ir para a
Petroquímica.
- Jacinto,
cerca de 25 anos, ajudante, trabalhava mais com os motores, com o Manuel
Correia. Também foi para a Petroquímica.
- Santiago,
20 e poucos anos, tinha regressado da tropa e preparava-se para casar. Parecia
habilidoso e como ia casar, tentava ir fazendo alguns apetrechos de cozinha em
aço inox sempre que conseguia algum tempo disponível e fora das vistas do
Mestre Carolino.
- Leal,
cerca de 20 anos, em breve ia para a tropa. Já o conhecia do Clube Nacional de
Natação
- João
“Cantinflas”, cerca de 20 anos, também foi para a tropa. Bom moço.
- “Carlinhos”,
talvez 18 anos ou 19 anos, sobrinho do encarregado dos Tubos, era um rapaz
alegre. Estava sempre pronto a acompanhar o oficial que fosse em serviço aos
Laboratórios J. Neves, onde ele tinha a namorada. Certo dia, estando a
trabalhar no limador, que ficava logo atrás da escrevaninha do Mestre Carolino,
meteu um bocadinho mais de ferro, o limador até “roncou”, o Mestre Carolino,
acto contínuo virou-se para trás e pespego-lhe tal chapada que o “Carlinhos”
foi bater na parede e foi de seguida mandado para casa. Não recordo se tornou a
regressar mas o caso meteu o tio ao barulho!
- Manuel
Carlos, 20 e poucos anos, era novo na empresa e vinha de trabalhar na força
aérea. Era primo do João Brito. Não era mau rapaz mas, profissionalmente, era
sobre o fraco.
- “Zé”,
cerca de 20 anos, pouco expansivo, era bastante solicitado pelo Mestre Carolino
para preencher as requisições de material.
- “Zé”
“Jardineiro”, cerca de 18 anos, era filho do jardineiro do Visconde de
Botelho. Profissionalmente dentro da média.
- Verónico
Vargues, algarvio, cerca de 17 anos. Tal como eu, deve ter caído nas graças
do Mestre Carolino e recebeu a alcunha de “Jaburú” assim como eu a de
“Perdigão”. Tudo porque ele nortenho e ferrenho do Futebol Clube do Porto,
tinha de nos atribuir alcunhas de acordo com jogadores do FCP da altura.
A vida dá muitas voltas e é um grato prazer,
ao fim de 60 anos, encontrarmos alguém do nosso tempo de juventude, quando nós
éramos apenas o João e o Verónico. Foi o que aconteceu!
- Zé
“Casa Pia”, 18 a 19 anos, era um moço com quem eu privava bastante, não só
porque bastas vezes estivemos a ajudar o mesmo oficial, o Manuel Correia,
“Manel dos Compressores”, como também porque era minha companhia durante grande
parte do trajecto de saída para casa, e gostava de pedir-me opiniões.
Mentalmente fraco, tinha estado na Casa Pia e a mãe algumas vezes foi ao
Argibay pedir para o auxiliarem. Nesse ano de 1955/56, matriculou-se na Marquês
de Pombal, no 1º ano mas a vida não ia fácil. Dizia ter tocado requinta, na Casa
Pia. Bastantes anos mais tarde, encontrámo-nos. Ele reconheceu-me, tinha casado
e suponho que tinha uma filha.
Claro que o pessoal não se esgotava na Oficina
de Serralharia pois havia o pessoal da Caldeiraria, dos quais apenas recordo o
“Chamusca”, que morava na Chamusca e fazia diariamente esse trajecto em
transporte público. Não sei quantas horas perderia nisso! O “Cebola”, ajudante
de caldeireiro e que, mais tarde vi na Margueira. O Manteigas, soldador, pai do
“Matateu”, também soldador, que tocava clarinete e que tinha regressado da
“tropa”. O “Barcelinhos”, homem dos seus 40 e tal anos, ajudante de
caldeireiro, figura típica e humilde. Um outro, também de cerca de 40 anos,
soldador e fanático do Benfica. Dois aprendizes de soldador, o Arlindo e o
Américo, por sinal bons profissionais e que, pelo menos o Arlindo, foi para a
Lisnave.
Na Caldeiraria de Tubos havia um aprendiz
que não recordo o nome.
A Secção Eléctrica, estava instalada na
Sociedade de Caldeiraria e Forjas, junto ao topo da Doca de Alcântara.
Os trabalhos mais comuns eram as
reparações dos navios da Companhia dos Carregadores Açorianos, tais como o
“Pero de Alenquer”, “San Miguel”, “Sete Cidades”, “Lagoa”, “Horta”, “Monte
Brasil” e o barco dos Pilotos da Barra de Lisboa, o “Comandante Pedro Rodrigues”.
Trabalho também normal eram reparações nos Laboratórios J. Neves. Julgo que,
afora o que atrás mencionei, o fabrico de caldeiras e a sua reparação eram as
suas principais fontes de trabalho.
Em finais dos anos 50 ou princípio dos
anos 60, transferiu as suas instalações para Arcena, Alverca, onde, já com
carreiras, se dedicou à construção naval.
Na carreira o “Cacilhense”, que dava nome a um grupo de novas unidades,
ou um cacilheiro dessa classe
Em 1981, durante um levantamento para o
“Estudo Integrado dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sines”, estive nos estaleiros
do Argibay, onde se encontravam em construção alguns cacilheiros da classe
“Cacilhense” (“Seixalense”, “Palmelense”, “Sintrense”) e onde o engenheiro
responsável era o filho do encarregado Armando Antunes!
Os ventos, porém, não iriam ser favoráveis
e em 1994, a empresa agora já com o nome de ARGIBAY - Sociedade de Construções Navais e Mecânicas, S.A., entrava em falência!
E lá se colocou mais um prego, no “caixão”
da indústria naval portuguesa!