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domingo, 9 de novembro de 2014

À vela ... ! ( 5 ) "Cutty Sark" e "Rickmer Rickmers"

Não quero fechar este tema dos veleiros sem referir, dois que arvoraram a bandeira nacional e que hoje em dia são admirados, não em Portugal mas noutras paragens. São os casos do “clipper” “Cutty Sark” e da barca “Rickmer Rickmers”.


"Cutty Sark", arvorando bandeira britânica
(retirado de http://www.rmg.co.uk)
O primeiro, construído em 1869, andou na “Rota do Chá” e em 1895 foi vendido à firma portuguesa Joaquim Antunes Ferreira & Companhia, tomando o nome de “Ferreira” até 1916, ano em que depois de reparações, foi transformado em escuna e recebeu o nome de “Maria do Amparo” Porém, em 1922 passou de novo a mãos britânicas e em 1954 foi levado para a doca seca em Greenwich, onde tem estado exposto ao público servindo de museu, não sem deixar de passar por vários infortúnios, o último dos quais um violento incêndio em 2007.




Ainda em relação a este veleiro, tive o grato prazer de, nos idos anos 60, ouvir da boca de um dos seus antigos tripulantes, homem dos seus 80 anos, a descrição pormenorizada de episódios passados com data e tudo, às tantas horas do dia tal entrava o navio no porto tal e o tempo estava desta maneira. Incrível essa descrição que só não era mais incrível porque o dito senhor tinha em casa, feito por suas próprias mãos, uma miniatura do “Ferreira”, completíssima com tripulação e tudo. Queria entregar aquilo a quem de direito para que fosse conservado mas, pelos vistos, ainda nenhuma entidade oficial se tinha dignado receber o espólio! Isto só não é incrível porque se passava em Portugal!
De referir que também, noutra doca, ao lado do “Cutty Sark”, se enconta o “yawl” “Gipsy Moth IV”, relembrando a volta ao Mundo, em solitário, de Sir Francis Chichester, em 1966/67.
Isto, em Inglaterra!



Quanto à barca “Rickmer Rickmers”, muita gente a conheceu mas hoje em dia está um pouco esquecida por via daquela que a veio substituir.
Esta barca, foi construída em 1896, nos estaleiros Rickmers, em Bremerhaven e em 1912 mudou o nome para “Max”.
Durante a Primeira Guerra Mundial foi capturada na Horta (Açores) e emprestada à Grã Bretanha como auxiliar na guerra, tomando o nome de “Flores”.

Aqui está a "Sagres", antes de se chamar "Santo André"
(retirado de http://www.ancruzeiros.pt)
Terminada a Guerra, foi devolvida ao Governo Português e, agora, com o nome de “Sagres”, ficou ao serviço da Marinha de Guerra como navio escola, para treino dos cadetes da Escola Naval.
Em 1960, foi retirada do serviço de navio escola e foi rebaptizada, agora como “Santo André”. E foi em Setembro de 1962 que estando eu a cumprir o 1º ciclo da recruta, como cadete da Reserva Marítima, tive oportunidade de conhecê-la, embora nunca tenha subido às vergas ou ao cesto da gávea porque, além de não ser obrigatório, eu não era trapezista!
A esse tempo e com a vinda da “nova” “Sagres”, a “Santo André” foi reclassificada como navio depósito e permaneceu atracada na Base Naval do Alfeite para ser desmantelada em 1975. Triste fim seria o seu! Mas, como estamos em Portugal, há males que vêm por bem e a demora proporcionou que uma organização alemã a comprasse e a transformasse em navio museu que se pode visitar atracada no porto de Hamburgo e com o seu nome original.


Em Outubro de 1996, atracada e "disfarçada" no porto de Hamburgo, a mim não me enganou.
De verde pintado o casco mas, como era bem mais bonita, toda de branco!
Parece ser, então, um fim feliz para uma vida atribulada.
Também neste caso, a Alemanha quis de volta o que foi seu e honra o seu passado!

Posto isto e tendo em linha de conta que um navio construído em 1896, foi retirado em 1962, portanto com 66 anos de serviço, o que dizer do futuro da “Sagres” actual que foi construída em 1937, o que equivale a dizer que já tem 77 anos. Será que esta tomou o elixir da juventude?
É um facto que me parece esta ter sido sempre objecto de mais cuidados que a anterior que eu, por acaso, considero mais esbelta. E se esta é bonita, a anterior com mais um pano (6 em vez de 5), quando enfunada era um verdadeiro espectáculo!


Para concluir, quero referir que a Alemanha para reaver a “Rickmer Rickmers”,  deu-nos um palhabote, o “Polar”, para treino dos cadetes.
Agora a minha dúvida põe-se. Para quê a “Sagres”? Note-se que eu também gosto muito de vê-la, mas não será hora de “encostá-la” e criar um museu?
Quais os custos de manutenção desta embarcação, pessoal incluído? Será que algum dos cadetes nela treinados, algum dia, vai navegar num tal veleiro? Será que o treino de navegação não pode ser feito nesse tal “Polar” ou até num qualquer navio da Marinha de Guerra?
Será assim tão grande o benefício dumas viagens à volta do Mundo que tal não possa ser feito noutro navio ou será apenas para o currículo dos cadetes e de mais alguém?
Ou será, apenas, para darmos ao mundo uma imagem daquilo que já não somos?
Temos e tivemos navios que apodreceram, e apodrecem, que podiam, podem, fazer esse serviço.
Sem procurar muito, lembro-me do “Gil Eanes”que, no fim de longa agonia, foi recuperado para museu; do “Creoula” que, depois de recuperação, mantém vivo algum do espírito marinheiro das lusas gentes; da “D.Fernando II e Glória” que, no fim de agonia ainda mais longa e trágica, lá foi recuperada e posta à visita mas que duvido seja motivo de grande afluência; da “Boa Esperança” que, “esperança” do António Vilar o levou à falência (segundo constou) e agora, depois da saga da viagem ao Cabo da Boa Esperança, se vê quase sem esperança, em águas algarvias e do “Funchal” que também teve o seu fim bem próximo e parece tê-lo adiado, sabe Deus até quando. Este, julgo eu, ainda poderia não ser só para cruzeiros mas fazer também algumas viagens de “marketing”, relembro uma embaixada comercial espanhola em 1957, a bordo do “Cabo de San Roque” ou navio semelhante. Os nomes que aponto não resultam de nenhum estudo prévio, apenas são nomes que eu lembro, depois de ver o que se tem feito à Marinha Mercante Nacional.
Por último, ponho a questão. Será que os oficiais da Marinha Mercante não sabem navegar? Terão algum atestado de incompetência?
Que eu saiba, eles nunca tiveram treino na “Sagres”! 
A “Sagres”, como museu, talvez possa gerar mais receitas e menores despesas que a “D. Fernando II e Glória” que tão mal aproveitada parece estar, devido à sua localização!
A não ser que pensem deixá-la apodrecer, por não haver dinheiro para a manutenção, ou vendê-la à Alemanha a troco de um “prato de lentilhas”!

Enfim, termino o meu desabafo!