quinta-feira, 15 de março de 2012

O "Angola", vai de viagem... virtual! ( 6 )

Como o navio já está quase de partida, convém que os “passageiros”, meus convidados, tomem contacto com parte dos alojamentos e instalações que vão ser postas à sua disposição. Eu não quero que lhes falte nada...
Assim, aqui ficam algumas imagens que poderão ajudar na sua escolha.

1ª classe. Salão
1ª classe. Bar e Salão de Fumo
Suite de Luxo. Quarto
1ª Classe. Sala de estar
Suite de Luxo. Sala de visitas
1ª Classe. Sala de Jantar
Sala de Jogos
Varanda Café
Como exemplo, posso adiantar que, na Sala de Jantar da 1ª Classe, a decoração é de acordo com a tradição espanhola do século XVI. As paredes, até ao rodapé, são em painéis de nogueira escura, limitados por traços verde escuros; coluna e as travessas, também, revestidas em nogueira escura, avivadas por brilhantes e coloridas cornijas, em vermelho e azul. Acima do rodapé, as paredes têm um acabamento mate, em marfim velho, para dar um efeito de estuque e o tecto tem um acabamento semelhante. O pavimento é coberto com “Ruboleum”, placas em castanho e em verde, dispostas decorativamente. O mobiliário, em nogueira escura, com estofo vermelho em pele, dá um tom de excelência. Nas janelas, agrupadas ao longo da parede curva de vante, os acessórios para os cortinados são de ferro preto mate e no grupo central de janelas laterais são montadas grades metálicas, em preto mate, ao estilo da época. Grades semelhantes cobrem os altifalantes, nas paredes, e os painéis de ventilação no tecto. Um guarda-louça, com espelho em moldura de nogueira, está colocado de cada lado das portas de serviço de acesso à copa, e espelhos semelhantes estão colocados de ambos os lados, na parede a ré. Os acessórios no tecto, com moldura preta decorativa em metal e painéis de vidro fosco, oferecem a iluminação artificial. Cortinas em tom creme, com um estampado vermelho e dourado, completam uma muito atractiva sala.

Um verdadeiro mimo!!!

Façam "Boa viagem"!

terça-feira, 13 de março de 2012

O "Angola", vai de viagem... virtual! ( 5 )

Vista aérea do porto, artificial, de Leixões
Matosinhos. Porto de abrigo

Ontem, cumprindo o previamente estabelecido, o “Angola”, terminado o carregamento previsto, vai regressar a Lisboa, pelo que o Comandante pôs as Máquinas em “Atenção”, às 17.00h, começando a manobrar às 17h 24 min e dando a manobra por terminada, com “Toda a Força a Vante”, às 17h 40min. E seguiu viagem, rumo ao sul!

Foi assim que, às 02h 41min do dia 13, com o avistar da baía de Cascais, as máquinas foram, de novo, postas em “Atenção” para parar, para meter piloto, às 03h 07min, e seguir para fundear em Santa Apolónia, o que aconteceu às 04h 56min, ficando o navio a aguardar a ordem de “Suspender” e “Atracar”, que começou às 06h 58min e terminou às 08h 27min.

E, isto que não diz nada ao comum dos passageiros, aconteceu depois duma viagem de 172 milhas, que durou 10h 39min, a uma velocidade média horária de 16,1 nós.

Passado este intróito, o “Angola”, depois de, aqui em Lisboa, completar o carregamento e preparar as instalações para os passageiros constantes da lista de embarque, estará pronto para zarpar, no dia 16, rumo ao extremo norte da África Oriental portuguesa.

Entretanto a escala de serviço, agora de 24 horas, diz que eu irei ficar de serviço no dia 15, o que, terminando às 08.00h do dia 16, já nem dará tempo de ir a casa despedir-me da família. Na prática, eu começarei a viagem um dia antes dos outros!

Portanto, vou ter que, nessas 24 horas, preparar as máquinas para o dia seguinte e essa tarefa, já rotineira, traz-me à memória a minha 1ª viagem.
Também dessa vez fiquei de serviço na véspera da saída.
Como o navio saía do cais de Alcântara às 22.00h do dia seguinte, durante o dia anterior tínhamos que “pôr a instalação em cima” começando pela circulação do motor para proceder ao seu aquecimento, acender a caldeira, etc.. Durante a noite, estava eu, o Praticante a Oficial Maquinista, a descansar um pouco, fui chamado pelo 3º maquinista. A bomba de alimentação da caldeira não funcionava! Foi um abrir e fechar de válvulas, mas a única solução foi eu, às 04.00h ir para a cabine telefónica do cais da Fundição tentar descobrir o 1º maquinista. Constava que ele estaria a dormir em casa de um irmão, mas não se sabia o número de telefone, só se sabia que o irmão se chamaria António, ou Alberto Ribeiro. Foi uma odisseia, fui à lista telefónica, liguei até para os A. Ribeiro, desfazia-me em desculpas por acordar todo aquele pessoal e ao fim de um bom número de tentativas e de ouvir alguns impropérios, lá o encontrei. Às 05.00h ele estava a bordo e o problema foi resolvido! Na estadia, durante a reparação, alguém tinha trocado os lembretes das válvulas e baralhou tudo! Lindo! Nós, perante o problema, aplicámos toda a teoria, que vinha nos livros, seguimos as inscrições e fomos enganados, ele aplicou a prática e tudo funcionou às mil maravilhas. Foi a minha primeira lição de prática! Muitas outras iria ter!
A teoria é bonita, mas a prática nunca mais esquece e dá-nos a calma para enfrentar os problemas.

E, sob o olhar do Cristo-Rei, ao fundo, o canhão, no castelo de São Jorge,
 prepara-se para dar a salva de partida para a Grande Viagem


domingo, 11 de março de 2012

O "Angola", vai de viagem... virtual! ( 4 )

Como o tempo continua a ser pouco, vamos retomar o nosso itinerário onde ontem o deixámos.
Ao fundo, a Câmara Municipal e à esquerda os eléctricos na paragem para eu regressar a Matosinhos.
(Também, junto à paragem, lá está a Cervejaria que me ajudava a matar a sede...)
(retirado de www.origens.pt )
De eléctrico até à estação de São Bento, descemos e entramos na avenida dos Aliados, pela praça da Liberdade e daqui observamos toda a avenida, com o belo edifício da Câmara Municipal lá ao cimo e os edifícos de época que a ladeiam dum e doutro lado.
Posto isto, subimos até aos Clérigos, onde a torre, obra de Nicolau Nasoni, construída entre 1754 e 1763, cujo projecto previa a construção de duas torres, parece ficar escondida demais e, não fosse a sua altura e beleza, quase passaria despercebida. Merecia um maior desafogo, digo eu!
O que "restou" do Palácio de Cristal. (Hoje, Pavilhão Rosa Mota)
(retirado de www.minube,pt)
Mas, deixemo-nos de conjecturas e vamos a caminho do Palácio de Cristal e dos seus lindos jardins. Este palácio, nada tem a ver com o original, construido para a Exposição Internacional do Porto, que foi inaugurado em 18 de Setembro de 1865 e que foi demolido em 1951 para, no seu lugar, ser construido o agora existente, em betão armado, para nele se realizar o Campeonato de Mundo de Hóquei em Patins, em 1952.
Um olhar sobre a cidade e ... apenas 2 pontes
Uma vez aqui chegados, deleitados  com o que nos rodeia, aproveitamos para deitar uma vista de olhos sobre a cidade e com este olhar dar-lhe as nossas despedidas e um até sempre pois que, amanhã, o “Angola” regressará a Lisboa!
Gostaria de ver o Palácio da Bolsa, no exterior e os seus belos salões, mas não deu. Fica a intenção e a promessa, numa próxima visita.
E, assim, nos despedimos da Invicta!

sábado, 10 de março de 2012

O "Angola", vai de viagem... virtual! ( 3 )

Aproveito para informar, a quem ainda o não saiba, que qualquer lisboeta, antes de, no Porto, se meter terra dentro, deve fazer como a mulher séria, não ter ouvidos. O que em Lisboa é considerado “palavrão” e ofensivo, no norte e no Porto, em particular, o vernáculo é palavreado normal, até em família. Isto porque no Porto, o palavrão, dum modo geral, não é acintoso, ao contrário do que acontece no sul.
Posto isto e conforme prometi, hoje saímos do navio, atravessámos a ponte móvel e fomos em direcção à rua Brito Capelo, onde apanhámos o carro eléctrico que nos levou, pela longa avenida, até à Foz. Mais à frente, acompanhando o rio, o eléctrico levou-nos até à nova ponte, da Arrábida, obra maior da nossa engenharia, saída do traço do eng. Edgar Cardoso.
A Ponte da Arrábida, ainda a cheirar a nova.
(retirado de http://aesperadegodot.blog.sapo.pt)
Descemos do eléctrico e subimos ao tabuleiro da ponte, donde admirámos a vista panorâmica que se nos oferecia, levando-nos até aos longes do oceano, por um lado e às escarpas do Porto e de Gaia (ainda Vila Nova) por outro. E como a ponte é uma passagem... lá fomos a pé, para a outra margem.
Ponte D. Maria I (e, lá vai o comboio!)

Uma vez na outra margem, subimos a Coimbrões que alguém nos disse ser “pertelinho” e onde poderíamos apanhar o “trolley” para regressar à outra margem. Pura ilusão, o “trolley” nunca mais apareceu, e isso levou-nos a apanhar um táxi. Tudo parecia normalizar mas, decididamente, não era o nosso dia. O táxi foi descendo, até ao Candal, onde o impossível aconteceu. Trânsito parado, uma camioneta à nossa frente fez marcha atrás e num ligeiríssimo toque “ofendeu” o “digníssimo” emblema da Mercedes. Foi quanto bastou para o motorista sair do carro, fazer uma observação microscópica ao emblema e mandar o seu tão minucioso relatório para a sua secção de neurónios que talvez estivessem de folga e o homem não atava, nem desatava. Tudo na maior das calmas!
O "rabelo", carregado com o "sangue" das encostas do Douro
... e o Porto ali tão perto!
E nós lá estavamos, no Candal, e ... o Porto ali tão perto. Perante tal situação, propusemos terminar ali a viagem, pagámos e estava escrito que tinhamos de atravessar as pontes a pé. Lá fomos, então, até à ponte D. Luiz e continuámos o “passeio”.
A tão "desejada" Ponte de D. Luiz I

Como o tempo urgia, e o trabalho esperava, fez-se o regresso ao navio e amanhã iremos ver mais qualquer coisa! Fica prometido!

sexta-feira, 9 de março de 2012

O "Angola", vai de viagem... virtual! ( 2 )

Hoje, 9 de Março, fomos para o lado de Leça da Palmeira, e estivemos no areal onde estão implantadas umas piscinas. Porém, a época balnear ainda não abriu e a temperatura da água não convida, nem a molhar os pés. Posto isto, modificámos o nosso percurso e fomos, em sentido contrário, em direcção a Matosinhos e a caminho do Porto. Atravessámos a ponte levadiça e seguimos, de eléctrico, até ao Castelo do Queijo e à Foz do Douro.

Praia de Leça. Piscinas
Pormenor do forte de S. Francisco Xavier, vulgo "Castelo do Queijo"
Foz do Douro. Esplanada e pérgola (sobre a Praia do Molhe) e monumento ao "Náufrago"

Cumpre aqui dizer que os meus “seguidores” nesta viagem virtual, são livres de escolher os itinerários que mais lhes convierem, uma vez que eu, apesar do navio estar em porto, sou obrigado a “correr quartos” e, a mim, cabe-me fazer os quartos das 00.00h às 04.00h e das 12.00h às 16.00h. Como facilmente se depreende, terei de escolher entre descansar o “físico” ou andar em “passeatas”.
No meio de tudo isto ainda vou ter de fazer “contrabando”! É verdade! Em Lisboa, esgotou o “stock” de novelos de linha“Âncora” nº12 (suponho). A minha mãe necessitava de alguns novelos para terminar alguma colcha ou toalha, sempre a pensar nos filhos e no seu enxoval, e como a fábrica “Coats & Clarks” é na Senhora da Hora, pediu-me para tentar encontrar esses novelos. Procurei em Matosinhos e ao primeiro contacto fiquei a saber que, numa loja, a menina que me atendeu tinha “Coração” nº 5 o que, a princípio, me “assustou”, uma vez que o meu coração era apenas normal! Tudo esclarecido, lá consegui, noutra loja, arranjar o pretendido e já agora, para mim, roupa interior da “Ameal”, colorida e na moda!
E, porque é que isto é “contrabando”? Apenas porque não é possível sair de bordo com qualquer mercadoria, sem ter passado pela Alfândega, para pagamento da devida taxa. Porém, vou conseguir chegar, a salvo, com os novelos a casa e resolver o momentoso problema.
Amanhã, iremos até ao Porto!

quinta-feira, 8 de março de 2012

O "Angola", vai de viagem... virtual! ( 1 )

Hoje, vou começar uma viagem marítima, Lisboa-Leixões-Lisboa, a bordo do navio “Angola”, da CNN (Companhia Nacional de Navegação). Servirá como prelúdio doutra viagem, também virtual mas que procurará seguir a rota (real) deste navio na carreira de África e que aqui irei divulgando. É uma oferta aos meus seguidores e visitantes. A lotação não vai esgotar. Façam o favor de escolher os camarotes e preparem-se. Espero que vão gostando. Se algo correr menos bem, tal deve-se ao facto do navio estar a ser conduzido pelo “homem das máquinas” e não por um qualquer comandante Schettino.
(Nota: Esta viagem irá levar-nos aos anos 60, com todos os inconvenientes da época. As máquinas fotográficas, fraquitas, foram, um "caixotinho" da Kodak e uma "Olympus" e o fotógrafo foi o que se pôde arranjar, também fraquito. De vez em quando lá virá alguma coisa a cores mas, também da época!)


Comecemos, então, a “viagem”!

Hoje, dia 8 de Março o navio, em Lisboa desde o dia 9 de Janeiro, onde foi objecto de uma reparação de mais de 2 meses, está pronto a navegar e a voltar ao seu itinerário normal.
Sem passageiros, apenas alguns, poucos, familiares de alguns oficiais, aproveitaram esta viagem até Leixões que se destinava a recolher alguma carga e, assim, rentabilizar melhor cada viagem. Aproveitariam eles a viagem e, também, mais alguns dias na companhia dos seus familiares.
Devido a não levar passageiros, o navio saiu do cais da Fundição, Santa Apolónia que era o cais da CNN. O comandante pôs a máquina em Atenção e deu a ordem Devagar a vante, às 16h 48min. Às 18h 05min o navio saiu a barra.

Passando defronte da Praça do Comércio
O Padrão dos Descobrimentos





A Torre de Belém





O Cristo-Rei (ainda sem Ponte)
















A viagem, nocturna, avistando as luzes das Berlengas e da costa, decorreu sem sobressaltos sendo dada, para a Casa das Máquinas, a ordem de Atenção, às 03h 15min, e fundeando o navio, defronte de Leixões, às 03h 50min, onde aguardou o amanhecer para poder manobrar de novo.
Quantos navios aqui aguardaram e aguardam que o nevoeiro ou o mar enraivecido permitam a entrada e recolhimento em porto seguro. E quantas vidas já aqui ficaram!
Desta vez, porém, apenas houve que aguardar que o amanhecer nos permitisse manobrar.  
Às 06h 42 min começou a tarefa de Suspender e Atracar, que se concluiu às 08h 15 min.
Portanto, viagem sem história, com um total de, 172 milhas e 10h 52 min de navegação, à velocidade média horária de 15, 6 nós.
Do "Angola", já acostado, vista do porto de Leixões


Uma vez acostado o navio, vai-nos ser permitida uma curta visita ao porto de Leixões e arredores, Matosinhos e Leça da Palmeira e, apanhando o eléctrico, iremos até ao Porto onde, além dos antigos monumentos, já se pode observar a mais recente criação do eng. Edgar Cardoso, a Ponte da Arrábida.
No dia 12, já com alguma carga, regressaremos a Lisboa, donde sairemos no dia 16 para a viagem até Porto Amélia e volta.

Enquanto o "Angola" está acostado, o "Mariscal Lopez" faz-se ao mar!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Carnaval ! Talvez... "piegas".

Para os seguidores e visitantes deste blogue, para que se divirtam, mesmo sem "tolerância de ponto", aqui lhes deixo os ecos dum corso de Carnaval para o qual fui convidado mas que, afinal, parece não ser necessário convite. É um corso aberto aos "piegas", aos "não piegas" e a todos que ainda tiverem vontade de brincar a estas coisas! 


Corso do Estoril (premonição dum Carnaval, a preto e branco)
(retirado de www.leme.pt)

Foi-me ontem perguntado 
se pr’ó Carnaval deste pais
eu desejava ser convidado
e, quem tal diria, eu quis!

Foi-me também informado
de a ninguém se permitir,
mesmo a algum mascarado,
gargalhar, ou apenas sorrir.

Com tanta regra a cumprir
e algumas bem fora da lei,
respondi que sim, a fingir,
e, gargalhando, eu aceitei. 

Preparei-me para o cortejo.
Sentei-me no melhor lugar
e olhando ao fundo já vejo
que o Corso vai começar!

Ti’Anibal, vem à frente,
esse “algarvéo marafado”,
mostrando a toda a gente
a folha do seu ordenado!

Grita ele aos quatro ventos
e bem alto, como convém.
Só recebo mil e trezentos!
Ouviu bem? Ouviu bem?

E traz um cartaz, o inocente,
dizendo, e eu isso não o nego
:-O meu dinheiro é insuficiente
para mandar cantar um cego!

Assim, entre tanto mascarado,
vem a medo, mesmo à frente,
este personagem, o coitado,
a que chamamos presidente!

Tudo isto ele diz, sem sorrir,
a quem de pão não tem naco,
que só me apetece é despir
e oferecer-lhe o meu casaco.

Não parece lá muito esperto
pedir ele a quem já precisa.
Pedir-me mais, não é certo,
depois de lhe dar a camisa!

E digo-lhe, bem cá do coração,
quanto me sinto importunado
ao saber da sua mísera pensão.
Sinto-me por Deus abençoado!

Eu sei que, para viver em Belém,
num palácio ou em qualquer lado,
precisa mesmo ganhar muito bem
ou ser, então, juro,muito poupado!

Veja lá não gaste todo o dinheiro,
que este Carnaval não é só um dia.
Depois tem que viver o mês inteiro
só com a sua reforma e a da Maria!

E, lá se foi este Rei do Entrudo
sempre armado em bom rapaz.
O pessoal, pesaroso, fica mudo
e já um outro carro lá vem, atrás.

Um sucateiro de vara na mão,
montado num muitos cavalos,
lá vem arrastando, pelo chão,
uma, só, caixinha de robalos!

Agora vejo lá muito ao fundo,
lento, arrastando-se, feito Job,
prevendo o fim deste mundo,
o  meio alucinado “Rei Ghob”!

Entre os trajes lindos eu distingo,
neste tão lindo corso do Entrudo,
o de um licenciado ao domingo
vendo Portugal por um “canudo”!

Ele é um senhor, o “inginheiro”,
que a todos deu muita arrelia.
Ontem mascarado de Primeiro,
hoje, de estudante de filosofia!

Vejo um lindo carro branco,
branquinho e tão imaculado.
Nele, só vem quem no banco
tem limpo e gordo ordenado!

Traz ex-ministro e deputado
e mais pessoal todo contente
que além do parco ordenado
ainda trata da vida da gente!

Neste pais em que nada muda
cheio de políticos nova vaga
o dinheiro, pr’á gente graúda,
é só o povoléo quem  o paga!

Este cortejo cheira muito mal.
É só podridão em ritmo lento!
Podem chamar-lhe Carnaval
mas eu, perdão, não aguento!

Neste Carnaval em que alguém ri
mas o povo, coitado, esse chora,
sinto que já não faço nada aqui.
Pego na trouxa, vou-me embora!

Levanto-me! Nem vejo o fim!
Para cronista eu não presto
e penso, de mim para mim,
para o ano eu conto o resto.

Gosto dum bom Carnaval.
À brincadeira não me furto,
mas tão comprido está mal!
Será, pr’ó ano, mais curto?

Estes versos que eu aqui fiz
e que ninguém levará a mal,
são bem o retrato deste país.
Pais, com cara de Carnaval!

Divirtam-se! Se puderem...