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Aclamação de D. João IV |
No dia 1 de Dezembro, comemora-se a Restauração da
Independência de Portugal, em 1640. É sabido que ninguém larga de bom grado
aquilo que lhe pertence, ou julga pertencer-lhe. Foi o que aconteceu com o
ocupante espanhol que ao ver-se, durante 60 anos, senhor deste cantinho à beira
mar plantado, teve muita relutância em largá-lo. Assim, essa Restauração só se
tornou efectiva passados que foram ... 28 anos! 28 longos anos, pejados de
episódios de escaramuças, bravura, astúcia, traição, falsidade e imprevistos de que a História é fértil e
que, bastas vezes, mudam o seu rumo.
Vem isto a propósito de um episódio que teve lugar em
Salvaterra do Extremo que, situada na raia, esteve bem sujeita a todo o tipo de
desmandos. É o caso, quanto a mim ainda mal conhecido e menos explicado, do
“convite” feito pelo enviado espanhol, D. Alonso de Sande y Ávila, ao
governador da praça de Salvaterra, o sargento-mor António Soares da Costa. Ao
que consta, António Soares da Costa pretendia, tal como o governo português,
firmar e manter as relações comerciais com o lado de lá, para o que abriu
Alfândega em Salvaterra ao mesmo tempo que procurava relações cordiais com o
vizinho, dada a situação ainda pouco estável devido às escaramuças constantes.
Tal relação cordial terá levado D. Alonso a crer que não lhe seria difícil
conseguir que António Soares da Costa, a troco de algumas benesses, lhe
entregasse a praça e se passasse para o lado espanhol. Se bem o pensou, melhor
o fez! Em Março de 1655, o convite foi feito. António Soares da Costa, não se
terá dado por achado e terá feito menção de aceitar tal “honra”, mal
adivinhando D. Alonso o que lhe ia na cabeça. O governador, no entanto, fez
questão de exigir documento real onde lhe fossem atribuidas essas benesses. Não
fosse por isso e D. Alonso, lá arranjou Carta do Rei de Espanha, Filipe IV,
datada de 20 de Abril de 1655, onde lhe seriam atribuidos “quatro mil
ducados de renta cada año, los dos mil de ellos prepetuos p.ª su persona e
suzessores, y los otros dos mil por los dias de su Vida”, contra a entrega
da praça de Salvaterra.
Cartas de, D. Luiz Mendes de Haro e do Duque de S.
Germán, prometendo-lhe todo o apoio e dizendo da grande consideração que tinham
por António Soares da Costa, haviam também de ser por este recebidas.
O certo é que, logo desde o início, António Soares da
Costa foi dando conta do que se tramava, a D. Nuno da Cunha Athaide e no dia 13
de Abril, já D. João IV, também já ao corrente de tal facto, dava resposta a D.
Nuno, pedindo-lhe que o mantivesse informado do que se ia passando.
O assunto, até aqui, com mais ou menos pormenores, parece
ser conhecido. Já o momento da “entrega” da praça, ou é desconhecido ou diz-se
ter sido aprazado para a noite S. Pedro, aproveitando as festas. É possível que
tal tenha sido alvitrado mas, o facto é que tudo parece levar a crer que D.
João IV terá tentado retardar o que se havia de fazer, dado que ao mesmo tempo
tinha em Lisboa o enviado diplomático de França, cavalheiro de Jant, no sentido
de que a França nos ajudasse na consolidação da Independência e não lhe
convinha ter ao mesmo tempo um conflito com Espanha. Nuno da Cunha, sem
resposta, ia disfarçadamente reforçando a guarnição da fortaleza com tropas e
mantimentos e pedindo a António Soares da Costa que retardasse o mais que
pudesse a operação. Desconfiados, os espanhóis puseram pressa no que estava
acordado, antecipando-se ao que os portugueses desejavam, e a operação teve lugar
no dia 21 de Julho, pelo meio-dia. Não foi, portanto, nem no dia 30 de Junho,
nem à noite!
Conforme combinado, os espanhóis, disfarçados de
mercadores,apresentaram-se frente à fortaleza e foram entrando, um a um, e um a
um foram sendo degolados. Por fim entrou D.Alonso, o qual foi atado à boca dum
canhão e disparado este, espalhou os seus restos pelos ares fazendo debandar,
aterrorizadas, as hostes espanholas que se encontravam no campo à espera de
ordens.
Por último, é o caso de alguém referir que terá sido um
acto de traição, da parte de António Soares da Costa. Parece-me totalmente
descabida esta afirmação. Pode ser traição, trair um amigo ou uma pátria, a um
inimigo ou um desconhecido apenas se pode enganar.
Se não, vejamos a cronologia dos factos:
(continua)
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