sexta-feira, 4 de julho de 2014

A vida em Salvaterra ( 3 ) ! A população, no período (1860-1910) !


A igreja de Santa Maria, fortemente ligada aos nados, casados e falecidos em Salvaterra do Extremo,
bem como lugar de fé da população desta terra, julga-se que desde o séc. XV

A população de Salvaterra do Extremo no período (1860-1910)

Socorrendo-nos de um trabalho feito sobre o concelho de Idanha-a-Nova, poderemos dizer algo sobre Salvaterra do Extremo.
Assim, historiando um pouco, a legislação saída da República, logo em 1910, obrigava os párocos a entregar todos os Livros de Registos de Baptizados, Casamentos e Óbitos, nos registos civis da área. Face a esta situação os bispos ordenaram aos párocos uma rápida cópia-resumo dos mesmos livros, originando então os Livros de Extractos de Registo de Baptismos, Casamentos, Óbitos e dos Expostos
E é com este tipo de fontes que poderemos ter uma rápida consulta e um trabalho quantitativo à escala dum Concelho, dum Distrito e mesmo a nível nacional. Estes livros, porém, não são o espelho fiel dos Livros de Registo porque o tempo urgia e, assim apresentam, decerto, erros cometidos não só devido à pressa como também ao trabalho minucioso e cansativo. Algumas paróquias não têm os Livros completos e outras nem sequer os têm. Estas deficiências são mais notadas nos anos de 1910 e 1911, anos conturbados durante os quais o anti-clericalismo foi mais notado. Só em 1919 parece estar tudo normalizado, pois, no dizer do pároco do Ladoeiro, é escrito com satisfação que os dois últimos casamentos civis, que havia na freguesia, tinham sido legalizados.
Da análise dos Livros de Extractos, algumas conclusões se podem tirar e, em relação a Salvaterra do Extremo, assumir que os valores encontrados para o concelho de Idanha-a-Nova, não serão muito diferente para esta sua freguesia.

Verificamos, então, uma taxa de natalidade rondando os 40 nados/1000 habitantes e uma taxa de mortalidade variando entre os 20 e os 39 mortos/1000 habitantes. Valores estes que, na Europa, se situarão na 5ª posição, atrás da Rússia, Hungria, Espanha e Itália ou Grécia (estes três, países mediterrânicos). Verifica-se também que há uma relação directa entre a natalidade e a mortalidade. Ao aumento da natalidade, corresponde um aumento da mortalidade.

Quanto à taxa de nupcialidade (casamentos), os valores parecem andar entre os 15 e os 20 casamentos/1000 habitantes.
Verifica-se também que os dias mais escolhidos para o casamento são a quarta e quinta-feira enquanto terça e a sexta-feira raramente eram utilizados. Porém, a partir de 1885, o sábado começa a ser também bastante escolhido. Explicação para isto, talvez a de que tanto a terça-feira como a sexta-feira são dias aziagos e quanto à escolha do sábado talvez, devido a uma evolução da sociedade, a ideia de colocar a festa mais próxima do domingo, único descanso semanal!
Os meses privilegiados para o casamento vão de Agosto a Outubro, certamente relacionado com o fim dos trabalhos agrícolas, após as ceifas. O mês de Outubro, a partir de 1880-1884, passa a ter uma maior incidência, talvez devido a uma maior ruralização, o que fazia estender o trabalho dos campos até mais tarde. Por outro lado os meses menos escolhidos para o casamento são Fevereiro e Março (meses da Quaresma) e Junho e Julho (meses das ceifas).
Quanto à idade do casamento, considerando o período de 1860 a 1921, admite-se que o mais frequente seja de 25 anos para o homem e 22 para a mulher.
A ancestral pia baptismal da igreja de Santa Maria
Os nascimentos envolvem os filhos legítimos, ilegítimos e os expostos. Assim, no concelho de Idanha-a-Nova, entre 1860 e 1864, 15% dos nascimentos são expostos. Em Salvaterra do Extremo, no período de 1880 a 1889, o número de expostos e de filhos ilegítimos igualam-se e consta que, entre 1870 e 1889, há 14 filhos ilegítimos, sendo que 5 são duma mulher, casada e jornaleira e 2 de uma outra.


Entrada do "Campo da Egualdade"!
Última morada dos habitantes de Salvaterra, a partir de 1905
A mortalidade é elevada, como foi dito atrás. O maior número de óbitos ocorre nas crianças dos 0 aos 2 anos. Os meses com mais óbitos são os de Agosto a Novembro. Tal deve ficar a dever-se à dureza do clima e dos trabalhos e ao desenvolvimento das doenças adquiridas durante o Verão e suas águas. As doenças são muitas, poucos ou nenhuns os remédios e os médicos, além dos quase raros cuidados de higiene e da vivência quase sempre paredes-meias com os animais, domésticos e de pastoreio. Numa situação destas qualquer doença se pode tornar mortal. As mais frequentes eram os carbúnculos, ampolas criadas pelas picadas das moscas dos animais e que eram queimadas com um ferro, na forja do ferreiro, qual marcação de gado. A portugueja, vulgarmente conhecida por urticária, era tratada vestindo a doente com roupa suja, de homem. A sarna, tratava-se untando o corpo do doente com petróleo. Para o sarampo, usava-se embrulhar a criança num cobertor vermelho, durante 5 a 6 dias. O cobertor era de betão e picava horrivelmente. Dizia-se que assim o sarampo saía mais depressa. Para o mau nascido (cancro), dava-se a comer rodelas de toucinho ou pó de sapo; pegava-se no sapo vivo e cozia-se numa panela de barro; o que restava da cozedura moía-se e esse pó era colocado em cima do nascido. Os cobrões, que apareciam no corpo, de homens e mulheres, porque havia passado alguma cobra por cima da roupa quando esta estava a enxugar ao sol, tratavam-se com óleo de trigo apertado a quente sobre a bigorna do ferreiro. Porém, as maiores doenças eram as sezões ou maleitas. Para quebrar estas febres de calor e de frio, bebia-se chá, feito a partir da flor silvestre fel da terra. Apareciam no final do Verão e provocavam grande mortandade, principalmente nas crianças, os anjinhos como o povo lhe chamava.
É claro que a fraca alimentação, à base de vegetais, pão, azeitonas e um naco toucinho, estava na origem da pouca resistência do povo às doenças. As crianças bebiam água dos regatos, comiam fruta ainda verde, suportavam as agruras do clima e bebiam o leite, enfraquecido, das mães. Os costumes também ajudavam, pois enfaixavam-se as crianças em baietas, logo ao nascimento e durante três meses, apertando-as para que a cabeça não pesasse para a frente e ficasse marreca. A criança devia ficar bem rija!

Também se verifica que as mulheres, após os 60 anos, duram mais que os homens.

Bibliografia:

António Maria Romeiro de Carvalho, in Medicina na Beira Interior da Pré-História até ao Séc. XX, Cadernos de Cultura, vol. 5, Out.1992

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