São eles, por
exemplo:
a)
Tudo leva a crer que Fr. Lopo Pereira de
Lima, sempre se manteve nas lutas da fronteira minhota, na companhia de seu
irmão. Em 1643, esteve na tomada de Salvaterra, praça de que era seu governador
no ano de 1644 e cujo cargo exerceu,
pelo menos, até Maio de 1645. Tudo isto faz sentido.
b)
O que cria algumas dúvidas, é o porquê da
nomeação, em Outubro de 1645, para governador de Salvaterra do Extremo, praça a
que nada o ligava. E essas dúvidas não parecem ser esclarecidas quando se lê na
“Nova Malta Portuguesa”, escrita em 1800, o seguinte:
“Nela
lhe certificou o mesmo Sr. Rei D. João IV, ter recebido a sua carta de 2 do
presente, dando conta do bom ânimo em que se achava de se empregar no Real
Serviço, no governo dessa Praça de Salvaterra (do Extremo), de que o tinha
encarregado, com o zêlo e cuidado com que até então o fizera na mesma
Fronteira.”
Quando
se diz “dessa Praça”, parece estar a referir-se a uma Praça na qual Lopo
Pereira estaria. A colocação de “(do Extremo)”, parece ser uma interpretação do
autor, pois não parece crível que esteja assim, entre parêntesis, no documento
real, uma vez que é normal, nos documentos conhecidos, Salvaterra do Extremo
ser identificada apenas por Salvaterra ou, por vezes, Salvaterra da Beira. Por
último diz o autor também, “de que o tinha encarregado, com zêlo e cuidado com
que até então o fizera na mesma Fronteira”. Diz “que o tinha encarregado” e não
de que o ia encarregar. Diz “com zêlo e cuidado com que até então o fizera na
mesma Fronteira”, quando é sabido que, “até então”, Lopo Pereira sempre o
fizera noutra e não na “mesma Fronteira”!
Ora
o que nos parece é que Frei Lopo Pereira de Lima, nunca terá sido nomeado
Governador de Salvaterra do Extremo, mas apenas foi reconduzido no governo da
praça de Salvaterra (de Portugal, do Minho, ou da Galiza, conforme as
conveniências) que, embora se tenha mantido portuguesa até ao fim das guerras
da Restauração, foi devolvida a Espanha.
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Pedra de armas, seiscentista, com o brasão dos Pereiras, na Casa de Bertiandos (retirado de www.cm-pontedelima.pt) |
Já
vimos, pois, que Frei Lopo Pereira de Lima que tanto ansiava o cargo de Prior
do Crato, muito embora nomeado, nunca o pôde utilizar na sua plenitude com as
mordomias a ele devidas.
Por
outro lado, também se vê o quanto ele ansiava esse cargo e rejeitava tudo o
resto. Se não, vejamos:
-
A sua carta de 2 de Outubro de 1645 obtém
resposta de D. João IV a 15 do mesmo mês. Não se sabe qual a sua reacção a essa
carta, mas julga-se não ter sido de muita satisfação. Já antes, no dia 7 de
Julho, o seu irmão, Diogo de Melo Pereira, tinha enviado uma carta a D. João
IV, pedindo licença para se deslocar a Malta, e para a qual obteve uma honrosa
carta de permissão, no dia 5 de Novembro de 1645.
-
No entanto, Diogo de Melo Pereira, só em
Maio de 1646, usou da licença que D. João IV lhe havia dado!
-
Entretanto, D. João IV resolve nomear Fr.
Lopo Pereira de Lima para governar a guerra do Sertão, em Pernambuco,
escusando-se este a tal nomeação, invocando a necessidade de ir a Malta render
seu irmão.
-
D. João IV, porém, em carta datada de 4
de Julho de 1646, escrita em Alcântara (será, em Lisboa?) mostrando grande
consideração, sempre lhe foi dizendo que estimava que o seu irmão se
encontrasse de boa saúde e pronto a voltar ao reino para que ele, D. João IV,
pudesse contar com pelo menos um deles, já que não podia contar com ambos.
-
Em Outubro de 1646, sabe-se que o
governador da praça de Salvaterra do Extremo já era o capitão Simão Fernandes
Faria.
Para
terminar, talvez possamos concluir que a Lopo Pereira de Lima, que andava sempre
na sombra do seu irmão, a partir de 2 de Outubro de 1645 e até, no máximo, ao
mês de Julho do ano seguinte, só o norteava o ambicionado cargo de Prior do
Crato. Portanto, mesmo que tenha sido Governador de Salvaterra do Extremo (o
que me permito duvidar), foi um governador ausente, uma vez que nunca sequer é
referido nalgum episódio de guerra ocorrido naquela terra.
Assim,
Fr. Lopo Pereira de Lima, terá sido um Prior do Crato sem honras (honras de conde, ou ainda mais que isso), um Governador
da Praça de Salvaterra sem se saber ao certo de qual Salvaterra e sem deixar
rasto e poderia ser Governador da Guerra do Sertão mas, a sua ambição era
outra! Aliás,
a sua carta de 2 de Outubro parece fazer parte dum plano destinado a, previamente,
obter as boas graças de D. João IV, de modo que a sua aceitação à nomeação do
novo Prior do Crato fosse quase certa e não apenas para “oferecer os seus
serviços”, que era coisa que ele vinha fazendo já desde 1641!
Olá João ,muito interessantes estes seus "documentos " , para a História do nosso concelho. Eles colocam-nos , inclusivo , várias questões que ,para quem tem o bichinho da História fica com vontade de investigar . Qual é a sua base de pesquisa , pode saber-se?
Ab.
Olá, Quina!
EliminarBem haja pelas suas palavras, às quais me apetece responder, qual Sherlock Holmes: - “Rudimentar”, cara Quina!
A minha base de pesquisa é isso mesmo, rudimentar! O que eu faço, como já deve ter percebido, é tentar encaixar o que vou descobrindo aqui e ali. Neste caso, como noutros, tem-me valido a “História de Portugal Restaurado”. No caso presente, servi-me também dos livros que indico no “post”: “Memórias históricas da antiguidade do Mosteiro de Leça, chamada do Balio” e “Nova História da Militar Ordem de Malta, e dos Senhores Grão Priores......”. Não desprezando algumas notas soltas que por vezes se encontram e servem para testar alguma veracidade das mesmas. E é tudo, assim a “internet” nos vá dando mais...
Abraço,
João Celorico